quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

O Que Eu Não Sabia


O professor e amigo Chico Pereira indicou a seus alunos da Feevale a leitura do meu primeiro livro, Virose (2013).

Lembro que me esforcei bastante para concluir e desenvolver a história. São vários personagens e tramas que se cruzam. O resultado foi bem prazeroso (pelo menos para mim).

Demorei para encontrar uma editora. Sem indicação e sem viver o meio literário é mais complicado ainda. Em Porto Alegre nem retorno negativo. Saiu pela Bartlebee de MG.

Uma pena que o livro tá difícil de achar. A editora faliu. Até em sebos não tá fácil de encontrar o Virose. Tinha um exemplar na livraria Traça e foi vendido recentemente.

Na época do lançamento saiu uma resenha do saudoso Alfredo Monte no A Tribuna, com elogios e também críticas, que é como tem que ser. Um jornalista da ZH disse que tava lendo e gostando, mas nunca publicou nada a respeito.

Também teve o caso da livraria (cultuada por ser independente) que se negou a vendê-lo e um espaço cultural (cultuado por ser independente) que não quis fazer o evento de lançamento. Tudo isso aconteceu.

O fato é que não há glória no caminho. Fazer literatura é assim: um exercício de paciência, resignação e serenidade. Mas isso eu não sabia quando lancei meu primeiro livro.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Abraçado ao Meu Rancor - João Antônio



Abraçado ao Meu Rancor é, possivelmente, o melhor título de livro já escrito na língua portuguesa.

João Antônio, o autor, diz que o escolheu ao ouvir um tango. No conto homônimo, ele não aponta qual é a canção. Imagina-se que seja Como Abrazado a un Rencor, de 1930.

Em relação a obra, o livro é João Antônio em sua essência. Inicia, como fez em todos os demais publicados, com uma dedicatória à Lima Barreto (Para Afonso Henriques de Lima Barreto, pioneiro). E o que segue são dez histórias sobre excluídos, seu assunto predileto desde a estreia com Malegueta, Perus e Bacanaço, na década de 60.

Abraçado ao Meu Rancor foi originalmente publicado em 1986 pela editora Guanabara, sendo reeditado em 2002 pela Cosac Naify. Entretanto, não é uma tarefa fácil encontrá-lo nem em sebos.

Um trecho

Do que o sol nasce a que morre, este gente batalha. Uns entram a trabalhar pela noite nas industrias, gramam ali, buscando horas extras. Moram em Carapicuíba, Jandira, Itapevi, Osasco e lidam no outro lado da cidade. Queimam hora, hora e meia de trem. Viajam a pé, marmita debaixo do braço e os tarecos necessários. Ninguém se fala. Andam sonados, destroçados de cansaço. Tristes uns, inexpressivos outros, feito coisas. Feito bichos, olhos parados de boi.

Esses bancos das composições ainda eram de madeira. Uma vez, garoto, eu ia sentado e veio uma mulher. Onze da noite. Aquela deveria estar com fome e, na cara, uns olhos mortos de sono.

- A senhora sente.

Sentar, não. Aí, botei cara séria, insisti, deixasse de vergonha comigo. Então, me disse, sem graça, que não se descansava, não. Tinha medo de arriar, dormir, perder a estação em que havia de descer. Era o último trem; e se dormisse?


Leia o conto completo 


terça-feira, 18 de dezembro de 2018

A Comida que o Maicon Mais Gostava


Mais que teoria, a gente lembra das coisas que aconteceram na escola. No Ana Neri, por exemplo, tinha uma professora de Português que nos ensinava a rezar.

Nas aulas de Educação Física, quando eu saía em disparada para o pátio, na troca de turno, a mestra me puxava e falava que primeiro vinha a educação, só depois a parte física.

Também tinha uma outra que dizia assim. "Vocês tem que passar desodorante. Se vocês não tem dinheiro, que passem talco no sovaco. Não quero aluno fedido na aula!".

Eu me lembro disso tudo vivamente. Porém, a recordação que volta e meia me surge é do Maicon.

Pois teve uma professora da quinta série que resolveu perguntar, no início do ano letivo, o prato preferido de cada aluno. Citavam galeto, massa, churrasco, batata frita... E o tal Maicon, que era um gordinho atarracado, me saiu com essa.

- Meu prato preferido é carne de feijão e uma salada bem geladinha.

E todos riram dele. Prontamente, seu apelido virou Carne de Feijão.

Daí, você vê. A cabeça da gente é impressionante. Eu não lembro a composição da fórmula de báskara, mas até hoje sei a comida que o Maicon mais gostava.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

O Escritor Hoje


Hoje, o escritor é como aquela menininha que tocava piano em 1800. Só serve para se exibir para a família.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Histórias de Vida à Margem da BR-101


O repórter Murilo Salviano, da Globo News, cruzou a BR-101, que vai do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte, atrás de histórias de brasileiros que vivem à margem dessa estrada. Foram 4.7 mil quilômetros percorridos de carro, em 30 dias. Ao todo, 12 estados foram visitados.

Um dos personagens entrevistados é Vilmar Godini, um ermitão que mora em uma caverna, na praia da Pinheira, cidade de Palhoça, Santa Catarina. Depois de conhecer o local onde ele vive e conversar um pouco, o repórter questionou.

- O que é o Brasil para o senhor?

Após uma pausa de 20 segundos, o ermitão respondeu.

- O Brasil é só um território.

A premissa de todo bom Jornalismo está presente nesse documentário. Ouvir pessoas e contar o que se vê. O resultado é um perfil do que é o país hoje.




sábado, 1 de dezembro de 2018

A Velha em Busca de uma Coca Zero


A velha, curvada pelo tempo, chegou na padaria da Borges de Medeiros. Não tomou conhecimento da longa fila no caixa.

- Com licença! Me vê uma coca zero.
- Ó.
- Não essa, moço. Quero a zero.
- Mas é essa, senhora.
- Não é.
- Está escrito aqui: "sem açúcar".

A velha quase encostou a cara na lata para conferir.

- Cadê o zero?
- É a mesma coisa. Sem açúcar é igual a zero.
- Se é assim, não quero.
- Senhora, é que essas embalagens e esses nomes mudam.
- Meu filho, tem que estar escrito zero.
- É que mudou, já faz um tempo que...
- Não mudou! Vou noutro lugar. Eu sei que tem coca escrito zero por aí.

E saiu. Bem devagar.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

O Homem que Conserta Máquinas de Escrever - Seu Ibanez Flores


Depois de ir buscar a Olivetti da amiga Priscila Ely, voltei na loja e oficina do Seu Ibanez Flores, Centro de Porto Alegre. O homem que conserta máquinas de escrever. Muita história. Num canto, uma das máquinas recém arrumadas tem mais de 96 anos. Preta. E como brilha! As peças, até mesmo as miúdas, tiveram que ser cromadas. Noutro lado, uma que passa de cem anos sendo cuidada aos poucos. Tem até uma laranja. Chama a atenção. A história é curiosa. A dona pagou uma parte e nunca mais voltou pra buscar. Ele foi atrás. Não a encontrou. São quatro anos de sumiço. Pergunto se ele quer vender. "Não posso. Vá que ela volte". Flores trabalhou no Correio do Povo e Zero Hora. Era o responsável pelo setor de manutenção dos equipamentos, então fundamentais para colocar os jornais na rua. "Na Zero Hora tinham 2.5 mil máquinas de escrever. Nossa equipe trabalhava sem parar", disse. No fim, o homem confidenciou. Está cansado. Passou dos 80 e quer desistir do negócio e aproveitar um pouco a vida. Porém, teve a precaução de deixar o legado para dois colegas e amigos. Ambos, mais novos que ele. "Mas são velhos também! O mais jovem tem quase 60. Se eu bater as botas, eles assumem", brincou.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Daquele Instante em Diante - Documentário Itamar Assumpção


Um documentário de 2011 que destrincha a trajetória de Itamar Assumpção, prolífico cantor e compositor que, durante seu período de atuação, não teve reconhecimento de grande parte do público e crítica, sendo taxado de artista "marginal" e "maldito".

Ele participou do movimento Vanguarda Paulista, na década de 1980, junto de Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, Premê, entre outros. Porém, sua carreira não se resume a isso. Vale ouvir com atenção seus discos. Neles, fica evidente o manancial criativo que foi Itamar Assumpção. Difícil carimbar rótulos no som que ele produziu.

No filme, a filha dele, Anelis Assumpção, relembra um diálogo que teve e que demonstra bem o que foi a vida do pai artista (e é também um resumo do que é fazer arte no Brasil hoje):

- E depois que ele fez tudo isso e não teve o reconhecimento merecido, o que aconteceu com o Itamar? 

- Depois disso, ele morreu.


Daquele Instante em Diante - Direção Rogério Velloso (2011)


sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Podcast - A Literatura Best-seller tem Valor?


Participei de um podcast para o site Mínimo Múltiplo. No programa, também participam os jornalistas Lucas Colombo e Jeison Karnal.

A pauta parte da presença de Paulo Coelho, Augusto Cury e os "instapoetas" nas listas de livros mais vendidos para discutir o valor da dita literatura "best-seller". Qual é a "fórmula" de Paulo Coelho? Livros assim ajudam a formar leitores, a fazê-los depois procurar uma literatura mais elaborada?

Ouça a conversa.


segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Um Gato que Se Chamava Rex no Diário de Canoas



O gato que se chamava Rex e pedia respeito

Livro infantil dá lição de tolerância para a garotada

Jeison Silva

Rex é um nome clássico de cachorro. Mas quem disse que gato não pode ter esse nome? O livro infantil "Um gato que se chamava Rex", do escritor Lucas Barroso, faz desse pequeno deslocamento sígnico uma metáfora para a complexidade da vida. Uma questão e tanto para a criançada, nesses tempos estranhos: discute intolerância e incentiva o respeito às diferenças (e não se limita a questão de gênero). A publicação da Editora Moinhos é ilustrada por Humberto Nunes e será lançada na Feira do Livro de Porto Alegre em 9 de novembro, às 19h30, na Praça de Autógrafos.

O autor jornalista veio matutando a ideia desde o lançamento do livro de contos "Um Silêncio Avassalador" (2016). O nascimento do primeiro filho, Murilo, foi o que inspirou o escritor adulto a conversar de novo com o mundo infantil, uma espécie de reencontro consigo mesmo. "Foi uma dupla descoberta, aprendi a ser escritor e a ser pai", brinca. "O Rex é um personagem carismático, fácil de se apresentar numa contação em escolas, aproximará filhos e pais". Em um dos trechos de maior lirismo e sabedoria, o narrador de "Um gato que se chamava Rex" como que faz um alerta ao futuro adulto: "A vida tem uma porção de coisas que a gente não entende bem. Muitos mistérios, segredos e surpresas ao longo do caminho. Algumas vezes, fica difícil explicar ou compreender o que acontece". O livro pode ser talvez a primeira grande reflexão de um menino ou menina, uma filosofia que persistirá para toda a vida.


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Matéria publicada na edição impressa do Diário de Canoas, caderno Variedades, dia 2 de novembro de 2018.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Eu sou um dos imbecis do Umberto Eco


Primeiramente, glória a Deus e à Internet.

Explico.

Partindo do pressuposto que não sou dinheiro para que todos gostem de mim e que, segundo Umberto Eco, "as redes sociais deram voz aos imbecis", concluo que sou um desses que ganharam a tal voz.

Porque, para alguém que não gosta de mim, das minhas opiniões, do meu texto, evidentemente, eu sou um imbecil. Um asno completo, que deveria se calar ou se recolher a sua insignificância. As redes geram essa ira, essa dicotomia, essa sandice. Quem não gosta fica fulo. Assim deve ter acontecido com Eco, antes de talhar a tese.

Minto.

As redes não geram nada. Mas isso é outro assunto.

Que sou um imbecil, portanto, é fato. Mas não me calo, tampouco me recolho, pois as redes sociais deram voz aos imbecis. E como todo bom néscio, levo frases de intelectuais e filósofos ao pé da letra, não preciso ler mais que uma máxima ou manchete para saber e, prontamente, contrapor. Já se eu concordar, compartilho.

Para tipos como eu, que afrontam Umberto Eco, Lênin cunhou: "A liberdade é uma coisa tão preciosa que deveria ser racionada".

E Lênin deve ter dito isso a sério.

Como foi comentado, mais de uma vez, eu tenho ciência em qual categoria me enquadro. Contudo, há quem me defenda. "Heresia é apenas um outro nome para liberdade de pensamento", cravou Graham Greene.

Ou seja, além de tudo, sou um tipo de burro que blasfema. O primeiro comentário desse texto será "Quem você pensa que é para questionar Umberto Eco?".

Eu já disse. E acrescento o seguinte.

Hoje, parece um saco essa avalanche de gente que fala pelos cotovelos. Porém, recordar é viver. Mesmo que ninguém se lembre mais, é preciso afirmar veementemente que era muito mais chato viver em "silêncio". Dependíamos apenas da figura onipotente do formador de opinião ou do veículo de imprensa para nos sentirmos ouvidos e representados.

Aos saudosos, aos inconformados, eu sugiro.

Ainda existe a possibilidade de não ler o que não se gosta nas tais redes (opções bloquear, desfazer amizade, silenciar) ou de seguir consumindo tal formador de opinião. Ele ainda existe. Tem jornais, revistas, rádios e TVs por aí. De tudo que é lado, vertente, ideologia. Tem gente boa produzindo nesses meios.

Em último caso, dá para usar o computador só para responder e mandar emails, entrar no site do jornal preferido ou ver pornografia. Também é possível utilizar o telefone celular para as mesmas funcionalidades do computador ou, pasmem!, só para fazer e receber ligações.

Mas.

Quem não suporta o ruído dos tolos não se conforma. Além de se escorar na frase-tese de Eco, eleva o tom e aponta o dedo, alertando ou acusando as fake news. Um grito em comunhão com a mídia tradicional, que está em uma cruzada contra essa prática.

E onde as notícias falsas se propagam?

Nas redes. Bingo! Achamos os culpados. Os imbecis. Entretanto, sabemos que não é bem assim. A moeda tem outro lado. E a mídia tradicional tem seus interesses e usa e abusa de sofismas (sendo até conivente com alguns casos) para alavancar/destruir reputações e se vender como relevante. Daí, não é fake news, logicamente. "Veja bem, erros acontecem...".

Sei.

Sobre isso, o jornalista americano A.J Liebling sentenciou."As pessoas não param de confundir com notícias o que lêem nos jornais".

Eu sei que não podemos levar frases ao pé da letra, não é mesmo? E também não vamos demonizar ninguém, por favor.

Voltando ao que interessa.

Deixa quem gosta de palpitar, palpitar. A plataforma, ou os meios, nesse caso, não tem culpa de nada.

Enfim. Eu vou na fé.

Como eu gosto de escrever minhas coisinhas e ler outras tantas, de amigos e inimigos, nas poucas preces que faço, aquelas das noites de leve desespero, eu fecho os olhos e tento não reclamar nem pedir demais e sempre, ao fim e ao cabo, agradecer a minha saúde, de minha família e a internet por me dar esse espacinho para falar minhas bobagens.

Amém.

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P.S.: Se mesmo assim, eu estiver errado, sei que "Deus me perdoará. É a sua profissão" (Heinrich Heine).

Fora o aforismo de Umberto Eco, os demais foram extraídos do livro de citações O Melhor do Mau Humor (edição de Ruy Castro, Companhia das Letras, 1989).

Texto originalmente publicado no site Mínimo Múltiplo.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

No Máximo, de Umas Três


Velho Zé vendia churrasquinho. A gente conversava e eu gostava de ouvir o velho. Certa feita, falávamos das coisas do coração. Eu me queixava. Tava numa fossa desgraçada. Praguejava e colocava todas mulheres num balaio, porque, para mim, elas não prestavam. Além disso, eram confusas demais. Ele escutou tudo e não disse nada.

Então, perguntei.

- Vem cá, Zé. Tu que já viu muito. Tu entende as mulheres?

- Olha, até entendo. Mas, no máximo, de umas três.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O Cachorro do Mendigo


Relação que tenho com a Literatura é a mesma do cachorro com o mendigo.

Olhando de fora, não faz sentido algum o bicho perseguir a pobre criatura humana pra cima e pra baixo, todo o dia, dormindo em brinquedos do parque ou em carrinhos de supermercado, e recebendo as migalhas das migalhas.

Mas o certo é que o cão, de alguma forma que não se explica direito, vê o coração do mendigo. E acaba alimentando uma boa dose de esperança naquele sujeito.

Assim, sem que o animal perceba, seguir ao seu lado não parece uma sina.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

As Canções que Você Fez Pra Eles - Músicas que Roberto Carlos Deu Para Outros Gravarem


Um breve compilado de canções que Roberto Carlos compôs e deu para outros artistas gravarem. A maioria delas foi feita em parceria com Erasmo Carlos. Algumas são sucessos que ninguém imagina que foram criados pela dupla.

Lembranças - Kátia (1979)



Kátia, a cantora cega, fez um grande sucesso nos anos 80 e 90. Ela foi apadrinhada por Roberto Carlos, que a levou em diversos programas de auditório e nos seus próprios shows Brasil afora. Além de Lembranças, que no período figurou no ranking da mais tocadas, o Rei compôs mais cinco músicas para Kátia, todas assinadas em parceria com o seu amigo Erasmo Carlos.

Uma delas foi Qualquer Jeito, versão de It Should Have Been Easy, de Bob MacDill, sucesso na voz de Anne Murray. A música é reconhecida até hoje pelo refrão "não está sendo fácil".

Meu Grito - Agnaldo Timóteo (1967)



Clássico na voz de Agnaldo, Meu Grito foi composta por Roberto Carlos, sem seu parceiro habitual. Como a maioria de suas letras, nessa também há um tom pessoal. Os versos falam de seu relacionamento com Nice. O motivo desse tal grito era a impossibilidade do Rei se casar com ela, pois na época a lei brasileira não permitia casamento para desquitados (que era o caso de Nice). A Lei do Divórcio entrou em vigor em 1977.

A Volta - Os Vips (1966)



Foi gravada pelos irmãos Ronaldo Luís Antonucci e Márcio Augusto Antonucci, este falecido em 2014. A dupla Os Vips era reconhecida pelas versões dos Beatles e outros sucessos estrangeiros. Em sua discografia, gravaram muitas canções de Roberto e Erasmo que nunca saíram nos discos dos dois, como as faixas Emoção, Faça Alguma Coisa pelo Nosso Amor, Não Adianta Ficar Me Esperando, Que Bobo Fui Eu e a primeira gravação de É Preciso Saber Viver, de dezembro de 1968. Além delas, Os Vips lançaram A Despedida, música composta só por Erasmo, e Largo Tudo e Venho Te Buscar, composição somente de Roberto.

Uma curiosidade. A Volta foi gravada por RC somente em seu disco de 2005 e foi tema da novela América, da Globo.

Trilha sonora da novela O Bofe (1972)



Roberto e Erasmo Carlos assinaram a trilha sonora da novela O Bofe, da rede Globo. A trama de Bráulio Pedroso foi ao ar em 1972. O disco, produzido por Eustáquio Sena e com arranjos de Waltel Blanco, é considerado cult atualmente. Roberto e Erasmo não cantam nenhuma música, os intérpretes são Elza Soares (Rainha da roda), Os Vips (Grego só) e Maria Creuza (Só de Brincadeira), entre outros. Tem até Nelson Motta cantando! A faixa é Madame Sabe Tudo.

Da para se considerar como uma das obra mais experimentais deles. Um álbum que serviu de ponto de virada na carreira de ambos. A partir daí, Roberto abraçou as músicas românticas de vez e Erasmo enveredou mais para a MPB. O tempo do iê-iê-iê e do rock ficou para trás. Por esses motivos, O Bofe é um disco singular na carreira de RC.

Papai, não foi esse o mundo que você falou - Toni Tornado (1971)



No início da década de 70, Roberto Carlos estava vidrado na soul music americana de James Brown. Tinha composto, em parceria com Erasmo, o hino Jesus Cristo. "Nós queríamos apenas fazer um som gospel com a levada que eles tocavam lá. Roberto nem era religioso na época", disse Erasmo, na biografia não autorizada de RC. Logo após, veio outra pedrada soul, Todos Estão Surdos.

Papai, Não Foi Esse o Mundo que Você Falou tem essa mesma pegada. Os versos não poderiam ser mais atuais: "Abro o jornal vejo guerrilhas/ o sangue deixa a sua trilha/ vejo protestos, ocupação/ vejo misérias e traição/ Prevejo a morte da alegria/ a noite vai vencendo o dia".

A música é a nona faixa do disco de estréia de Toni Tornado, que também tem outra canção da dupla Roberto e Erasmo, a bela Não Lhe Quero Mais. Na época, o álbum ficou marcado pelo clássico BR-3, mas vai muito além.

Dela - Cyro Monteiro (1969)



Roberto e Erasmo já fizeram samba. Quem acompanha a carreira dos dois sabe. Tem Cama e Mesa (Roberto), Coqueiro Verde (Erasmo)... Contudo, todas as composições deles nesse ritmo não devem caber em uma mão.

Seu namoro com o ritmo do Brasil começou com participações em festivais de música, onde RC agregou outros estilos ao seu modo de compor e ver a música. Em 1967, ele participou do III Festival da Música Brasileira, interpretando Maria Carnaval e Cinzas, de Luiz Carlos Paraná. Em seu disco de sobras e lados b, San Remo 1968, gravou Ai que Saudades da Amélia, Ataulfo Alves e Mário Lago.

Dessas experiências, surgiu a vontade e fazer um samba. Assim, surgiu Dela, composição de Roberto e Erasmo, que foi gravado por Cyro Monteiro, quatro anos antes de falecimento.

Mais músicas de Roberto Carlos que outros gravaram


  • Meu Nome é Gal - Gal Costa (1969)
  • Preciso Urgentemente Encontrar um Amigo - Mutantes (1970)
  • Estou Começando a Chorar - Wilson Miranda (1967)
  • É Difícil Amar na Minha Idade - Ed Carlos (1969)
  • Um Quilo de Doce - Wanderléa (1965)
  • Procurando um Broto - Cleide Alves (1963)
  • Não Adianta Nada - Nichollas Mariano (1967)
  • O Muro de Berlim - The Bells (1966)
  • Quando a Cidade Acorda - Gerson King Combo (1970) 
  • A Festa do Bolinha - Trio Esperança (1965)
  • Consideração - A Bolha (1977)
  • Telefonema - Cidinha Campos (1967)
  • Juro Por Deus - Rosemary (1965)
  • Você Já Morreu e Se Esqueceu de Deitar - Silvinha (1971)
  • Matando A Miséria A Pau - Lafayette e Dina Lúcia (1965)
  • Toque Balanço, Moço! - Golden Boys (1965)
  • Não Presto Mas Te Amo - José Roberto e Demetrius (ambos gravaram em 1967)
  • Tenho um Amor Melhor que o Seu - José Roberto (1967) e Antônio Marcos (1968)
  • Promessa - Wanderley Cardoso (1966) - Essa foi regravada por RC em seu disco de 2005
  • Duas Bonequinhas - Sérgio Murilo (1964)
  • Vou Fechar a Porta - Luiz Carlos (1966)
  • Reynaldo Rayol - Aniversário do Meu Bem (1963)
    Optei por não citar mais de uma canção do mesmo artista. De todos os nomes elencados no texto, Wanderléa (oito) e Cleide Alves (sete) foram as cantoras que mais gravaram músicas "doadas" pelo Rei. 

    terça-feira, 9 de outubro de 2018

    O Dia Em Que o Papa foi a Melo - Aldyr García Schlee

    Autor brasileiro tem forte ligação com o Uruguai

    Trecho do Conto II, que fala sobre a expectativa de Jesús María, um cego, morador de Melo, no dia em que o Papa chegou na cidade.

    (...)

    O Papa virá num ardor, carregado nos braços como os santos em procissão. As pessoas desafiarão o rosário entre ave-marias e padre-nossos. Haverá aleijados e doentes à espera de um milagre.

    Jesús María faz força para imaginar o Papa sem óculos de Pio XII, faz força para vê-lo como via Nossa Senhora dos Passos levado ao encontro da Virgem. Jesús María pensa nos desenganados de toda a sorte, em gente carregada em catre, levada nos braços, gente de muleta, cadeira de rodas, mancos, pernetas, surdos, mudos, fanhos... E não pensa em milagre.

    Os olhos sem luz tinham sido roídos, tinham sido comidos, e já não existia neles uma mínima fagulha que por milagre lhes restituísse os brilhos e as cores, as formas - que povoavam o seu mundo de lembranças e sonhos e que eram, ao mesmo tempo, consolo e desesperança. Ele vivia na certeza de que só a memória lhe permitia ver, vivia no medo de que se apagasse essa memória que lhe ensinara definitivamente a enxergar para trás; ele vivia certo de que também a imaginação lhe permitia ver, mas temia que ela se fosse - a imaginação que lhe dava a alegria de enxergar para frente. Mas o medo maior que o afligia, e que não contava para ninguém, e que nem explicaria como é que tinha, era o medo de não saber mais enxergar sem lembranças e sonhos com que via nitidamente tudo.

    (...)

    O Dia Em Que o Papa foi a Melo, editora Mercado Aberto, 1999. Livro publicado originalmente em 1991, em espanhol, Ediciones de La Banda Oriental. 

    No link, a jornalista Rosane de Oliveira lê o Conto IV, presente no mesmo livro https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/livros/noticia/2017/11/leituras-da-feira-o-dia-em-que-o-papa-foi-a-melo-de-aldyr-garcia-schlee-cja1hh24l013w01pm2x5ilepu.html

    sexta-feira, 5 de outubro de 2018

    Teddy - Trecho do Conto de J.D Salinger


    Teddy parecia alheio ao fato de que alguém estava de pé junto a sua cadeira, ou mesmo que uma sombra viera projetar-se sobre seu caderno de notas. Alguns passageiros nas fileiras de trás, entretanto, demonstraram possuir menor poder de concentração - e olharam para o rapaz talvez como só uma pessoa deitada numa espreguiçadeira consegue olhar para alguém. Mas o rapaz aparentava ser dotado de uma auto-confiança capaz de durar para sempre, ou pelo menos enquanto ele mantivesse uma das mãos no bolso.

    - Olá - ele disse para Teddy.

    Teddy olhou para cima e responde da mesma maneira ao cumprimento, deixando o caderno de notas checar-se quase que por si próprio.

    - Você se incomoda se eu sentar aqui um pouco? Essa cadeira é de alguém? - perguntou o rapaz, com o que parecia ser uma cordialidade infinita.
    - Bom, essas quatro cadeiras são da minha família, mas meus pais ainda não se levantaram.
    - Não se levantaram? Com um dia desses?

    O rapaz já se tinha sentado na cadeira à direita de Teddy. As cadeiras estavam tão próximas que os braços se tocavam.

    - Mas isso e um sacrilégio. Um sacrilégio total - disse o rapaz.

    Esticou as pernas que eram extraordinariamente grossas nas coxas, quase como o corpo de uma pessoa. Tinha a aparência típica de um americano da costa leste: entre o cabelo cortado à escovinha e os sapatos de lona já muito usados, o uniforme era bastante variado: meias de lã amarelas, calças de mescla cinza, camisa de colarinho, sem gravata, e um paletó que parecia ter sido devidamente amadurecido num dos cursos de doutorado mais prestigiosos de Yale, Harvard ou Princeton.
    - Meu Deus, que dia maravilhoso - disse ele satisfeito, apertando os olhos enquanto voltava o rosto para o sol. - Eu sou um prisioneiro absoluto das condições atmosféricas. Para ser franco, considero qualquer dia de chuva como uma ofensa pessoal. Um dia assim é um verdadeiro maná para mim - acrescentou, cruzando as pernas à altura do tornozelo.

    Sua voz, embora revelasse boa educação, tinha um volume bem superior ao necessário, como se ele estivesse plenamente convicto de que tudo que ia dizer pareceria correto - inteligente, culto, e até engraçado ou estimulante -, tanto para Teddy quanto para as pessoas sentadas nas fileiras de trás, caso estivessem escutando. Olhou de modo oblíquo para Teddy, sorriu e perguntou:

    - E como é que você encara o tempo?

    Seu sorriso não era desprovido de personalidade, mas tinha um que de artificial, refletindo, ainda que indiretamente, seu próprio ego.

    - Você se deixa influenciar demais pelo tempo? - perguntou, ainda sorrindo.
    - Não, nunca encaro o tempo de forma pessoal, se é isso que você quer dizer - respondeu Teddy.

    O rapaz riu, jogando a cabeça para trás, e disse:

    - Ótimo. Aliás, eu me chamo Bob Nicholson. Não sei se disse isso a você no ginásio. Eu sei o seu nome, é claro.

    Teddy virou-se um pouco de lado e repôs o caderninho de notas no bolso lateral do calção.

    - Eu estava vendo você escrever... lá em cima - disse Nicholson, apontando para o lugar em que estivera. - Poxa, você estava trabalhando como um mouro.

    Teddy olhou para ele:

    - Eu estava escrevendo no meu caderno de notas.

    Nicholson sacudiu a cabeça e perguntou, sorrindo, como quem quer puxar conversa:

    - Que tal a Europa? Você gostou?
    - Gostei. Gostei muito, sim.
    - Por onde vocês andaram?

    Teddy curvou-se para a frente e coçou a barriga da perna.

    - Bom, ia demorar muito para dizer todos os lugares, porque nós fomos de carro e rodamos um bocado. Mas eu e minha mãe ficamos mais tempo em Edimburgo, na Escócia, e em Oxford, na Inglaterra. Acho que eu disse, no ginásio, que fui entrevistado nesses dois lugares. Principalmente, na Universidade de Edimburgo.
    - Não, acho que você não me disse. Eu estava mesmo pensando se você não havia feito algum troço desses. E como é que foi? Te apertaram muito?
    - O quê? - perguntou Teddy.
    - Como é que foi? Interessante?
    - Às vezes sim, às vezes não. Ficamos mais tempo do que pensávamos. Meu pai queria chegar a Nova York um pouco antes desse navio. Mas vinham umas pessoas de Estocolmo, na Suécia, e de Innsbruck, na Aústria, para me ver, e nós tivemos que esperar.
    - É sempre assim.

    Teddy olhou para ele diretamente, pela primeira vez, e perguntou:

    - Você é poeta?
    - Poeta? Eu não, Deus me livre. Mas por quê que você perguntou?
    - Não sei. Os poetas sempre encaram o tempo de maneira pessoal. Estão sempre pondo emoções em coisas que não tem emoções.

    Nicholson sorriu e tirou do bolso fósforos e um maço de cigarros. Então, disse:

    - Sempre pensei que fosse matéria-prima que eles usam. Não é principalmente com emoções que os poetas se preocupam?

    Teddy aparentemente não o ouviu, ou não estava prestando atenção. Olhava distraidamente em direção às duas chaminés no convés de esportes.

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    Trecho do magnífico conto de Salinger, que integra o livro Nove Estórias. Teddy é um menino-prodígio de 10 anos. Ele faz uma viagem de navio com a família e, em certo momento da história, divaga com um tripulante sobre filosofia, religiosidade, entre outros temas. 

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    Mais sobre o autor

    Documentário "Salinger", de 2013 - https://www.youtube.com/watch?v=_JSFr7YdKLE

    Conto completo "Um dia ideal para os peixes-banana" - https://www.revistabula.com/683-um-dia-ideal-para-os-peixes-banana/

    terça-feira, 2 de outubro de 2018

    Conversa de Compra de Passarinho - Crônica de Rubem Braga

    Rubem Braga, 1913-1990

    Entro na venda para comprar uns anzóis e o velho está me atendendo quando chega um menino da roça, com um burro e dois balaios de lenha. Fica ali, parado, esperando. O velho parece que não o vê, mas afinal olha as achas com desprezo e pergunta: “Quanto?” O menino hesita, coçando o calcanhar de um pé com o dedo de outro. “Quarenta”. O homem da venda não responde, vira a cara. Aperta mais os olhos miúdos para separar os anzóis pequenos que eu pedi. Eu me interesso pelo coleiro do brejo que está cantando. O velho:

    – Esse coleiro é especial. Eu tinha aqui um gaturamo que era uma beleza, mas morreu ontem; é um bicho que morre à toa.

    Um pescador de bigodes brancos chega-se ao balcão, murmura alguma coisa: o velho lhe serve cachaça, recebe, dá troco, volta-se para mim: “- O senhor quer chumbo também?” Compro uma chumbada, alguns metros de linha. Subitamente ele se dirige ao menino da lenha:

    – Quer vinte e cinco? Pode botar lá dentro.

    O menino abaixa a cabeça, calado. Pergunto:

    – Quanto é o coleiro?

    – Ah, esse não tenho para venda, não…

    Sei que o velho esta mentindo; ele seria incapaz de ter um coleiro se não fosse para venda; miserável como é, não iria gastar alpiste e farelo em troca de cantorias. Eu me desinteresso. Peço uma cachaça. Puxo o dinheiro para pagar minhas compras. O menino murmura: “- O senhor dá trinta…?” O velho cala-se, minha nota na mão.

    – Quanto é que o senhor dá pelo coleiro?

    Fico calado algum tempo. Ele insiste: “- O senhor diga…” Viro a cachaça, fico apreciando o coleiro.

    – Se não quer vinte e cinco vá embora, menino.

    Sem responder, o menino cede. Carrega as achas de lenha para os fundos, recebe o dinheiro, monta no burro, vai-se. Foi no mato cortar pau, rachou cem achas, carregou o burro, trotou léguas até chegar aqui, levou 25 cruzeiros. Tenho vontade de vingá-lo:

    – Passarinho dá muito trabalho…

    O velho atende outro freguês, lentamente.

    – O senhor querendo dar quinhentos cruzeiros, é seu.

    Por trás dele o pescador de bigodes brancos me fez sinal para não comprar. Finjo espanto: “- Quinhentos cruzeiros?”

    – Ainda a semana passada eu rejeitei seiscentos por ele. Esse coleiro é muito especial.

    Completamente escravo do homem, o coleirinho põe-se a cantar, mostrando sua especialidade. Faço uma pergunta sorna: “- Foi o senhor quem pegou ele?” O homem responde: “- Não tenho tempo para pegar passarinho.”

    Sei disso. Foi um menino descalço, como aquele da lenha. Quanto terá recebido esse menino desconhecido, por aquele coleiro especial?

    – No Rio eu compro um papa-capim mais barato…

    – Mas isso não é papa-capim. Se o senhor conhece passarinho, o senhor está vendo que coleiro é esse.

    – Mas quinhentos cruzeiros?

    – Quanto é que o senhor oferece?

    Acendo um cigarro. Peço mais uma cachacinha. Deixo que ele atenda um freguês que compra bananas. Fico mexendo com o pedaço de chumbo. Afinal digo com voz fria, seca: “- Dou duzentos pelo coleiro, cinquenta pela gaiola.”

    O velho faz um ar de absoluto desprezo. Peço meu troco, ele me dá. Quando vê que vou saindo mesmo, tem um gesto de desprendimento: “Por trezentos cruzeiros o senhor leva tudo.”

    Ponho minhas coisas no bolso. Pergunto onde é que fica a casa de Simeão pescador, um zarolho. Converso um pouco com o pescador de bigodes brancos, me despeço.

    – O senhor não leva o coleiro?

    Seria inútil explicar-lhe que um coleiro do brejo não tem preço. Que o coleiro do brejo é, ou devia ser, um pequeno animal sagrado e livre, como aquele menino da lenha, como aquele burrinho magro e triste do menino. Que daqui a uns anos quando ele, o velho, estiver rachando lenha no inferno, o burrinho, menino e o coleiro vão entrar no Céu – trotando, assobiando e cantando de pura alegria.

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    Crônica publicada na Revista Manchete, em 19 setembro de 1959. 
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    Obs: No livro 200 Crônicas Escolhidas - As Melhores de Rubem Braga (Record, 1977), a crônica data de novembro de 1951.

    sábado, 15 de setembro de 2018

    Bobagens... Só Bobagens


    Fico pensando se minha vida daria um filme. Ou melhor, se o que vi da vida daria um filme. Decerto que tudo pode servir de matéria-prima e ir a tela. Até o nada – que, na verdade, não é nada, pois sempre há algo. Basta saber contar. Basta saber assistir o que se passa. É uma questão de percepção, de estar atento. Porém, ao focar em uma coisa, desfoca-se das demais. E são tantas! Quantos filmes nós perdemos em uma vida? Isso tudo me ocorre agora, enquanto preparo o mate. Escolho a cuia e a bomba pequena e não encho toda a chaleira, porque estou só. Quando se está só é que essas bobagens surgem na cabeça...

    O filme bem que poderia começar assim: um homem solitário. E o que viria depois?

    sexta-feira, 31 de agosto de 2018

    Almir Sater e Renato Teixeira - AR (2015)


    Se ainda faz sentido ouvir um "disco" do início ao fim, neste mundo de infinitas distrações, é o caso de AR (2015), de Almir Sater e Renato Teixeira. Canções brejeiras que falam de uma vida simples. As letras de Teixeira são doses de sabedoria popular, e a viola de Sater é precisa. Uma combinação difícil de dar errado.


    Publicado originalmente no blog do Mínimo Multiplo.

    quarta-feira, 22 de agosto de 2018

    De Vez em Quando Rola um Sim



    As polêmicas tolas de sempre no meio literário. Aquela confraria... Daqui dá pra sentir o tom. Falas de autoridade. Falsas autoridades. Distanciamento calculado. Vícios corriqueiros de quem vê o mundo pela janela de um  gabinete sem a luz do Sol. Um tique de acadêmico. Uma mania de intelectual. O debate. A "boa luta" - que nem luta de fato é. São só escritores falando com escritores. E o pior: escritores escrevendo para escritores. Eu sei. Você sabe. Além da pose, do rito, muitos apostam suas fichas minguadas na posteridade.

    Eu quase caí nessa. Agora, não mais.

    Claro, também tenho as minhas queixas e meus anseios. É bom que assim seja. Mas prefiro o pragmatismo de baixar a cabeça e trabalhar. Tentar escrever algo que preste, que é o que importa. Botar o pé na rua, os livros embaixo do braço e ir atrás de leitores, que é o que importa.

    O "não" me é garantido e certo. E, infelizmente, essas negativas aparecem com frequência - e isso é uma das queixas. Porém, de vez em quando rola um "sim".

    Por isso, vale a pena. Por isso, é importante não perder tempo com o que não interessa.

    terça-feira, 21 de agosto de 2018

    No Caminho dos Antiquários

    na calçada

    próximo
    de um abajur chinês
    de um ioiô de marca de refrigerante que não existe mais
    de um bilboquê
    e de diversos exemplares de fotonovelas italianas

    tem um mendigo

    data de (informação imprevista)
    valor da peça (a combinar com o expositor)

    sábado, 18 de agosto de 2018

    Solidão - Conto de Juan José Morosoli


    Domínguez recém chegara da lagoa com a ração do cavalo. Ia até lá colher as gramíneas de superfície e folhas de parietária dos troncos podres dos salgueiros, para dar ao seu velho cavalo, um animal sem dentes, já mui fraco e com olhos opacos de nuvens leitosas. Mas era também a única coisa viva que Domínguez tinha para ao menos ocupar-se de algo em sua vida. Depois de alimentar o cavalo, não tinha absolutamente nada para fazer. As ervas eram o único alimento que o pobre cavalo podia comer. Enfraquecia a olhos vistos e era certo que não sobreviveria ao inverno que estava começando.

    Depois de dar de comer ao cavalo, Domínguez pegou a cadeira petiça, de assento de couro de vaca, e levou-a para perto da cerca de tunas. Sentou-se e começou a preparar o mate doce. Era o café da manhã.

    Não tinha mais açúcar. Nos últimos dois dias seu café, seu almoço e sua janta era o mate doce sem açúcar. Ficou pensando se era o caso de procurar um sobrinho que morava do outro lado da cidade e pedir alguma coisa. Não tinha vontade de ir, pois o sobrinho, ao dar o pedaço de carne, gostava de dar também alguns conselhos. Parecia mentira, ele dizia, que Domínguez era tão velho e ainda não tinha aprendido a viver. E Domínguez tratava de “esquecer os cabelos brancos e sujeitas as mãos, para que não estalassem nas bochechas do ranhento”.

    Não, não queria ir. Mas dois dias sem comer dobravam a crista de qualquer um. Talvez, pudesse pedir fiado no bolicho novo... Mas era capaz que o bolicheiro novo já tivesse sido alertado pelos bolicheiros velhos, com os quais Domínguez tinha várias contas penduradas. Não que fosse mau pagador. Os proventos da aposentadoria é que eram pequenos. E quando os recebia, esquecia-se das contas e ia ao centro fazer compras à vista. Além disso, nos primeiros dias de pagamento gostava de ver vinho, queijo e doce em sua mesa.

    quarta-feira, 15 de agosto de 2018

    Saudade do Antônio Marcos ou Brega Como Tem de Ser


    Não sei se as pessoas não sofrem mais como antigamente, mas antes as canções de Antônio Marcos tinham sentido e tocavam fundo. "Volte amor", "Por que chora a tarde", "Você pediu e eu já vou daqui", "Oração de um jovem triste", "Menina de trança".

    As distrações eram poucas. Cabia ao sujeito remoer a dor nas madrugadas insones ao lado do radinho de pilha ao som dele e/ou fumando um cigarro com a janela aberta. Refletir. Repensar. Esperar... Porque não havia outro jeito.

    Contudo, hoje, qualquer desatenção nos consome e vale a pena. Mata o tempo. Nos distancia do que de fato sentimos. Alimenta o torpor e o esquecimento. Enfim, mata também um pouco da gente, soterrados por tanta informação e estímulo.

    É assim. Outro momento. Rádio já não tem mais. Pilhas muito menos. Antônio Marcos está quase esquecido. Vive, sim, mas escondido em um canto empoeirado do Youtube. Lá, o primeiro comentário diz assim. "Isso é que era música de verdade. Saudade desse tempo que não volta mais".

    Certamente, um saudosista.

    terça-feira, 14 de agosto de 2018

    Uma Breve História de Um Pai

    (Ou uma certa esperança)

    Mais uma noite em que andei léguas tiranas embalando meu filho. Pulso esquerdo aberto. Cãibras e dores musculares nas duas pernas. E ele segue chorando, impaciente. Inventei duas dezenas de melodias assobiáveis e nada dele dormir ou se acalmar. Um bebê é um ser insaciável. Extremamente carente e que não sabe sofrer calado. Retira o sono e a paz de todos a sua volta. Bagunça a rotina e esculhamba a casa. Até os gatos estão em polvorosa. Que beleza ou magia há nisso?

    Com o nenê em minha vida, meu ego e minha libido se tornam dispositivos sentimentais desnecessários, inúteis. Aliás, qualquer coisa que eu sinta é fútil, pois tenho um recém-nascido para criar. É o que me dizem quando me queixo. Meus bens materiais, meus discos, filmes, livros e jogos do Internacional são igualmente fúteis. Estão em um segundo plano e deverão retornar a ser prioridade, ou algo próximo a isso, depois, em algum período em que meu filho não precisar mais tanto de mim. Mas quando se dará isso? Eu me pergunto e temo pela resposta.

    Já dei mais de vinte voltas pelo apartamento. Terei mais um dia terrível pela frente. Meu filho ainda acordado. Não está mais nervoso como antes. Apenas faz força com as perninhas e dá breves gemidos. Eu poderia ter um colapso nervoso, mas não posso me dar a esse luxo. O fato é que me propus a ser um bom pai. Mesmo sem saber o que isso signifique ou como fazê-lo. São duas da manhã. Onde estão meus amigos agora? Sinto falta das conversas, piadas, confidências. Tenho ânsia de ligar para cada um e despejar essas coisas sobre as quais reflito. Contudo, não quero ser inconveniente. Eles, junto das demais "futilidades", também estão nesse segundo plano. Uma espécie de terra dos sonhos, que tendo a supervalorizar a cada dia.

    Meu filho enfim adormece em meus braços. O peso do mundo em minhas mãos. O coitado nada sabe. Nada sofreu de fato. Cólicas e vômitos são café pequeno perto do que virá. O mundo ainda vai castigá-lo um bocado. Mas agora, com essa luz branda de abajur e uma caminha vazia, eu detenho toda a maldade e o protejo. Até quando? Deixo seu corpo repousar no berço, como se fosse uma peça de cristal. Logo, logo ele acordará para mamar.

    Me deito. Preciso dormir urgentemente. Entretanto, meu delírio não cessa. Penso no livro A queda, de Diogo Mainardi, em O filho eterno, de Cristovão Tezza, e O pai da menina morta, de Tiago Ferro. Meu fardo não é nada. Eles sim tiveram uma história de dor e desespero para contar. E sobreviveram. Eu não posso me queixar.

    Eu não posso me queixar.

    Ainda mais porque logo na sequência do devaneio me vem a imagem de minha avó, que teve paralisia infantil na década de 30 e assim viveu até os 74 anos. Criou seus três filhos manca de uma perna e quase na miséria. Minha teimosia vem daí. Vou ser um bom pai.

    De supetão ouço um grito. Depois vem o choro forte. É meu filho. Ele mama em sua mãe. Ela está exausta, esgotada. Mas sorri e conversa com ele. Conta algumas coisas que se passaram e se passam conosco, enquanto preparo o café. Abro a janela. O sol furou as nuvens, porém o frio persiste. Me arrumo. Visto a criança. Pego um pano de cinco metros, faço uma amarração, encaixo o menino junto ao meu peito e saio para a rua.

    Ele olha atento a sua volta. O sol lhe machuca as vistas e ele mesmo assim insiste em ver. Árvores. Pássaros. Postes. Muitos fios. Carros. Comércio. Pessoas. Jovens passam distraídos. Homens adultos e velhos também. Só as mulheres e as senhoras percebem que há um bebezinho em meio àquele pano. Uma delas me aborda.

    - Oh, que amor! Qual o nome dele?

    - Murilo.

    - Lindo nome. Olha essa touquinha!

    E faz um gesto para o guri, como se lhe tocasse a ponta do narizinho com a mão. Murilo prontamente sorri. Depois gargalha.

    - Estou com um irmão em coma no hospital. Voltei de lá agora. Fiquei arrasada, mas ver uma criança assim dá uma certa esperança na gente, não é mesmo?

    Eu disse que sim.

    E nunca fui tão sincero em toda a minha vida.

    ........

    quarta-feira, 8 de agosto de 2018

    Um Gato Que Se Chamava Rex no Programa Tons e Letras

    Entrevista para o escritor Luis Dill, no programa Tons e Letras da FM Cultura (107.7). O programa foi pro ar no dia 27 de julho. Na pauta, o livro Um Gato Que Se Chamava Rex, publicado pela editora Moinhos.


    sexta-feira, 3 de agosto de 2018

    Parece que Morreu

    Dois idosos na rua Fernando Machado.

    - E aí, tem visto o Jorge?
    - Parece que morreu.
    - É?
    - Aham.
    - Mas ele nem era tão velho assim pra morrer.

    terça-feira, 24 de julho de 2018

    O Tênis do Camelô


    Eu não precisava de mais um par de tênis. Mas vi o camelô usando um modelo muito bonito. E essas coisas de camelô geralmente são baratas.

    - Ô, amigo! Tu tem um igual esse teu aí número 43?
    - Tenho esse aqui ó - e ele me entegou um par.
    - Hum... Mas o solado tá diferente. E tem essa costura...
    - É que é segunda linha né.
    - O que tu tá no pé também é segunda linha?
    - Não. O meu é original.

    segunda-feira, 16 de julho de 2018

    O Que É Ser Escritor Hoje - Um Relato de Wiley Cash


    Abaixo, o relato do escritor norte-americano Wiley Cash sobre os desafios de viver de escrita. O texto foi postado originalmente no twitter do autor e traduzido para o português pelo jornalista André Barcinski, que o publicou na íntegra em seu blog.


    Ontem à noite jantei e tomei cerveja com um bom amigo, que também é um escritor bem-sucedido, o tipo de escritor cuja carreira muitos de nós invejaríamos. Eu tenho pensando nele e nas coisas sobre as quais conversamos. Aqui vai:

    Quando as pessoas descobrem que sou escritor, muitas vezes, ouço coisas como: "Eu adoraria escrever, mas não tenho tempo", ou "Deve ser incrível sentar na mesa o dia todo e escrever o seu livro".  Anos atrás, quando minha esposa e eu nos mudamos para o nosso bairro, uma vizinha me disse que, sempre que passava pela nossa casa enquanto passeava com seu cachorro, ela pensava em mim lá dentro, sentado na minha mesa, trabalhando em um romance. Ela disse isso melancolicamente, como se fosse a vida mais tranquila que ela pudesse imaginar. 

    Nos últimos seis anos, publiquei três romances e um monte de contos e ensaios. Meu amigo com quem jantei publicou mais livros e ensaios que eu, e sua carreira tem sido um pouco mais longa, e ele vendeu mais livros. Mas quando nos encontramos, não falamos sobre nossos livros. Falamos sobre o trabalho. Falamos sobre seguro-saúde. Falamos sobre como o trabalho não-literário, as palestras, os workshops, os cursos que ministramos, limitarão nosso tempo livre na mesa, escrevendo. Falamos sobre as ligações que recebemos de pessoas de Hollywood e se devemos ou não acreditar quando elas nos pedem para trabalhar de graça na esperança de que alguém compre nossos projetos. Falamos de convites para palestras em bibliotecas, universidades e grupos cívicos. Quanto vão nos pagar?

    Quanto podemos esperar ganhar? Quanto vale ficar longe de nossa família por mais um noite? Devemos incluir no valor o tempo de dirigir, esperar no aeroporto e pegar um avião? Devemos ser honestos sobre como uma hora de "trabalho" requer 36 horas de viagem e preparação?

    Falamos sobre "blurbs" (frases elogiosas, geralmente de outros escritores, publicadas em capas e contracapas de livros para ajudar nas vendas), tanto as que pedimos, quanto as que somos solicitados a contribuir. Falamos sobre o mercado de livros e como nos sentimos sobre nossos agentes e editores. Falamos sobre a esperança de que o próximo livro seja o que nos ajude a chegar ao ponto em que finalmente não precisemos mais ter as conversas que ainda temos.

    A maioria dos meus amigos são escritores, e muitos poucos pode se considerar "bem de vida". Todos correm atrás, ralam, tanto em seus trabalhos literários, quanto em suas vidas pessoais. Há apenas um punhado de escritores neste país que não tem empregos paralelos ao trabalho literário. Conheço dois ou três.

    Concluindo:

    O livro que chega na estante da livraria não é o produto da vida dedicada à escrita, mas, na maioria dos casos, o subproduto da vida dedicada à escrita. E essa vida, muitas vezes, é menos sobre escrever e mais sobre tentar manter a qualidade de vida da sua família.

    Muitos empregos são difíceis, e muitas pessoas não ganham o salário que merecem. mas, na vida de escritor, pode acontecer de você trabalhar por anos em um projeto em que acredita, e ninguém publicar seu livro ou comprar seu roteiro, e você não receber um centavo. Então você dá aulas. Você trabalha como editor. Você escreve para revistas. Você viaja. Você dá palestras. Você passa semanas por ano longe da família. Você se preocupa com o seguro, com sua hipoteca e com as mensalidades das escolas de seus filhos.

    E quando você coloca a cabeça no travesseiro, sua mente viaja para aquele lugar especial onde seu livro repousa brilhante em sua imaginação, e você adormece esperando e rezando para que seja o livro que finalmente vai recompensar o esforço da vida que escolheu.

    Você pensa em sentar na mesa onde está escrevendo seu livro, olhando pela janela. Sua vizinha passa com o cachorro, e você espera que um dia ela esteja 100% correta em pensar: um escritor mora ali!

    sexta-feira, 13 de julho de 2018

    Um Gato Que Se Chamava Rex



    O melhor que pude com o que tinha. Esse é meu mantra e foi assim com o processo de criação de Um Gato Que Se Chamava Rex. Meu livro mais recente publicado pela Editora Moinhos. O curioso é que nunca pensei em escrever para o público infantil. Foi uma ideia inusitada, que surgiu no final de 2015, e apostei nela. O texto foi amadurecendo e ganhando pequenas alterações, porém, a essência foi mantida. Contar as aventuras de um gato que acredita ser um cachorro.

    O resultado ficou muito acima do esperado Uma edição caprichada, papel de qualidade e belas ilustrações. O livro já está a venda no site da Moinhos.

    Também tenho uns exemplares comigo e envio para os interessados via Correios. Nessa primeira leva, tem desconto.

    Agora, com o trabalho concluído, quero muito bater perna por aí. Levar o Rex para escolas, ONGs, etc. Aos leitores, espero que gostem da história, que dedico a Núbia, minha mãe, e ao Murilo, meu filho.

    SOBRE O LIVRO

    Pode alguém sentir que nasceu dentro de um corpo errado?”. É o que pergunta e instiga o narrador de Um gato que se chamava Rex, a mais recente publicação da editora Moinhos. O livro infantil é de autoria de Lucas Barroso (Virose, 2013, e Um Silêncio Avassalador, 2016) e tem ilustrações são de Humberto Nunes.

    A história conta as aventuras e desventuras de um gato que acredita ser cachorro e, por esse motivo, recebe o nome de Rex. Um livro que fala do respeito as diferenças, além de tratar do valor da amizade.

    “As dificuldades de convívio mais fraterno e humano, nestes tempos em que o preconceito anda solto, tem-se aí uma oportunidade de, numa história infantil, partir para a reflexão sobre a aceitação do outro, respeitando suas singularidades”, diz a jornalista, escritora e professora Luiza Carravetta, que assina a contracapa da edição.

    Um gato que se chamava Rex é o primeiro título infantil de Lucas Barroso. Segundo ele, a criação da obra surgiu a partir de outra ideia. “Quando era criança, me recordo de ouvir aqueles vinis coloridos, que contavam histórias infantis clássicas. Tinham muitas fábulas tradicionais. Acho que meu livro remete um pouco a essa memória afetiva. Mas o curioso é que a ideia inicial era um conto adulto, um diálogo de um gato com seu dono. Enquanto fazia o rascunho, surgiu essa fagulha e apareceu o Rex. O bichinho tomou conta e me levou para essa história que esta aí".

    segunda-feira, 18 de junho de 2018

    Borges e o Futebol


    Em época de Copa do Mundo sempre surge aquela pessoa que odeia e/ou menospreza o futebol. Nesse sentido, é interessante lembrar a figura de Borges. O canônico escritor argentino não tinha nenhum apreço pelo esporte bretão. Simplesmente, o desprezava como qualquer outra coisa que não correr atrás de uma bola em busca de um gol. Dele, há um sem número de frases anti-futebol, como as conhecidas:

    "O futebol é popular porque a estupidez é popular".

    "O futebol desperta as piores paixões".

    “Onze jogadores contra outros onze correndo atrás de uma bola não são especialmente bonitos".

    "O homem deixou de jogar xadrez e passou a jogar futebol. É um símbolo da degradação social". 

    Segundo consta em biografias, sua preferência esportiva eram as rinhas de galos. O desdém ao futebol era tamanho que o autor de Ficções chegou realizar uma palestra no mesmo dia e horário da estreia da Argentina em 1978, ano que o país sediou a Copa. Enquanto a albiceleste enfrentava a Hungria (o placar acabou em 2x1 para os donos da casa), Borges dava uma palestra em Belgrano.

    O evento dele não ficou para trás. O auditório estava lotado. Talvez, porque o assunto era um tanto peculiar: imortalidade.

    Além disso, há um outro registro de Borges criticando o esporte mais popular do mundo. Em um conto, intitulado Esse Est Percipi (Ser É Ser Percebido, em latim), publicado em Crónicas de Bustos Domecq, o escritor descreveu assim o futebol.

    Não existem escores nem jogadores nem jogos. Os estádios são prédios em estado de demolição, caindo aos pedaços. Hoje em dia tudo passa pela TV e pelo rádio. A falsa excitação dos locutores. Ora, nunca teve a desconfiança de que tudo é uma maracutaia? O último jogo que foi jogado na realidade nesta capital foi no dia 24 de junho de 1937. Desde aquele preciso momento, o futebol, da mesma forma que um amplo leque de esportes, é um gênero dramático, a cargo de um único homem em uma cabine ou de atores com camisetas perante o cinegrafista.

    quarta-feira, 13 de junho de 2018

    Três Barras


    Um conhecido me contou com uma certa naturalidade que seu filho não foi aprovado em um concurso público porque desistiu na etapa do teste físico. Acontece.

    O tal teste era composto por fazer três barras.

    "Mas eram três séries de quanto?", perguntei.

    "Não eram séries. Eram três barras", ele confirmou.

    Ou seja, o rapaz só precisava deixar o corpo descer e erguê-lo com os próprios braços três vezes.

    Nessa madrugada, embalei meu guri, o intrépido Murilo, que tem dois meses e 5kg, por três horas, até o sem vergonha dormir. Caminhei. Cantei. Me irritei. Busquei o número da adoção no Google. Me acalmei. E dormi lindamente com o pingo de gente.

    Tudo para que ele fique numa boa e toque sua vidinha sem sobressaltos. E, pelo amor de Deus, não se mixe para três barras.

    terça-feira, 12 de junho de 2018

    Descendo a Rua da Ladeira


    Uma rápida pesquisa me indicou o caminho. Rua da Ladeira. Bati o ponto. Intervalo. Dava tempo, sim. Subi a Espírito Santo a pé. Uma tarefa árdua. O forte cheiro de mijo ao lado da Catedral, esquina com a Duque de Caxias, me deixou zonzo. Na Praça da Matriz, em obras, respirei um pouco. Do alto, tudo parece mais bonito, mesmo não sendo. 

    Enquanto tentava me recompor, um flanelinha me confundiu com um motorista. "Ficou bem guardado, patrão!". Desfiz o mal entendido. Cruzei a praça. Acessei a Rua da Ladeira com uma certa esperança. Um homem anão e sem braços se atravessou na calçada. Quase bloqueou meu caminho. Pediu umas moedas. Respondi mecanicamente que não tinha. O que era mentira, pois estava ali exatamente porque havia dinheiro em meu bolso. 

    A bendita perdição dos sebos. Ia em busca de João Antônio. Casa de Loucos. Dez reais. Malhação do Judas Carioca. Dez reais. Ô, Copacabana! Doze reais. Malagueta, Perus e Bacanaço. Cinco reais. Leão de Chácara. Treze reais. Relíquias. Pechinchas. Achados. Somados dão o preço de um bom buffet, quiça com um chopp incluso – dois dedos de colarinho tirado na hora. 

    Como pode? Um dos maiores escritores brasileiros! Assim, de barbada. Alguém que descreveu e transcreveu nossa alma sem subterfúgios, sem tiques, exatamente como somos. Alguém que morreu só. E somente depois de quinze dias, deram falta de seu corpo, já apodrecendo, em um apartamentinho. 
    Então, sua obra vale um almoço. Não paga sequer um sushi em um shopping center. Não vale uma fútil iguaria gourmetizada do momento. 

    Onde foi que a Literatura errou para valer tão pouco? Tomo o caminho de volta. O anão sem braços segue no mesmo lugar. Agora, encostado em uma mureta, ao lado do sebo Beco dos Livros. Dessa vez, não me pede nada. Finge que não me vê. Eu também não teria mais nada. 

    Em mãos, só uma sacola cheia de livros. Repleta de histórias de pobres homens e pobres cidades, que João Antônio escreveu como ninguém.

    segunda-feira, 11 de junho de 2018

    O Futebol Sempre Nos Explica


    Era final da década de 1990, início dos anos 2000. Me lembro de debater com amigos e colegas de universidade a postura apática da população brasileira em relação à política nacional de então. Depois da Era Collor, não tivemos movimentos significativos de povo ocupando as ruas Brasil afora. Uma coisa aqui, outra ali, porém nada de massa, de milhões bradando palavras de ordem.

    O futebol, principalmente devido às seleções campeãs mundiais de 1994 e 2002, vivia seu melhor momento. Jogadores brasileiros fazendo sucesso no exterior. Uma sequência de craques sendo eleitos os melhores do mundo pela Fifa, como Romário, Rivaldo e Ronaldinho. Lembro muito bem. Pessoas andavam com bandeiras verde-amarelas nos carros. Pintavam suas casas. Usavam camisetas dos jogadores. E nós, os jovens politizados, dizíamos assim: “Ah, se o povo fosse tão apaixonado por política como é por futebol, o país certamente não estaria desse jeito”.

    Porque para nós, é importante deixar bem claro, o país não ia bem. A gente vivia no subúrbio. Não tínhamos grana, nem perspectivas de empregos decentes (entenda-se: melhores que de nossos pais). Nós havíamos estudado em instituições públicas por toda a infância e adolescência, e na hora h, de acessar uma universidade, não tinha como passar no tal vestibular da Federal. O jeito era bancar uma particular, sabe-se lá como. Essa questão era (e ainda é, pois há um déficit muito grande nessa área) uma tremenda injustiça. “E cadê o povo para protestar?”, a gente dizia. Não havia ninguém.

    Hoje, contudo, percebemos uma população realmente apaixonada por política. Tanto quanto as torcidas organizadas dos clubes brasileiros. Assistimos ou participamos de diversos grupos e protestos de vulto. Ruas bloqueadas e passeatas tem quase todo dia nas principais capitais. Sem contar nos milhões de 2013 e 2016. Os reflexos disso foram a derrubada de uma presidente, políticos presos, políticos presos e soltos logo depois, políticos corruptos ainda não julgados, políticos corruptos julgados e condenados, políticos com malas de dinheiro em apartamento, políticos, políticos... Uma forte indignação com os vícios de nossa classe política tomou corpo.

    O Brasil, diferentemente do que pensavam aqueles moleques em 90/00, não melhorou com essa paixão pela política. Para muitos, tornou-se mais chato, mais intolerante, menos diverso. O horizonte é desanimador. Não há esperança e perspectiva de futuro melhor. Há, como sempre houve, um forte aparato de marketing governamental para criar um discurso positivo, com um olhar generoso dos intelectuais orgânicos de ocasião. Todavia, essa mensagem de fé esbarra inevitavelmente nos R$ 13 milhões de desempregados e nos R$ 52 milhões vivendo abaixo da linha da pobreza, ambos dados atuais do IBGE.

    Existe uma diferença significativa nos dois períodos, que é a disseminação da internet. O surgimento das redes sociais fez proliferar uma enxurrada de discursos e narrativas para o que nos cerca. Algo que é salutar, a diversidade, pois oferece um vasto conteúdo para todos os gostos. Entretanto, esse livre acesso a informação acabou gerando uma dicotomia. Uma guerra de versões, que se demonstra insolúvel. Claro, você sabe do que estou falando: direita e esquerda. Até o momento, não surgiu ninguém, nenhuma figura pública ou política, realmente interessada em diluir esse maniqueísmo.

    Nossa vida se tornou essa insanidade. Não há um jantar de família, um encontro de amigos, uma reunião de trabalho, uma sessão no cinema ou uma publicação qualquer no Facebook, Twitter, Instagram, em blogs ou portais de notícias que não descambe para o famigerado combate entre os dois lados. Um escancarado Fla-Flu ideológico.

    E assim retornamos ao futebol. Ele sempre nos ajuda a entender o momento que vivemos.

    Em entrevista ao programa Comtexto, do canal Arte1, o jornalista Juca Kfouri relembrou que em 1970, quando estava em vigência a ditadura militar brasileira, contra a qual ele chegou a atuar, alguns companheiros seus de guerrilha torceram contra a seleção de Tostão, Pelé, Rivelino e Jairzinho durante a Copa do Mundo do México. Para Kfouri, além de ser uma heresia contra a alta qualidade do escrete canarinho, essa era uma atitude de total incoerência, pois o futebol sempre explicou o país. “Quem não dá ao futebol a devida importância que ele tem fica sem entender o Brasil. Ser contra o futebol é ser contra aquilo que se tem de mais íntimo. É um fator de mobilização social, não de alienação”, disse.

    De fato, o futebol é um bom parâmetro social. Tem o já citado e atualíssimo Fla-Flu, que, aplicado em um contexto sociocultural, é usado para representar um antagonismo obrigatório e irracional entre duas paixões. Assim como há o Complexo de Vira-Latas, termo cunhado por Nelson Rodrigues em um artigo no qual ele dizia que os brasileiros se sentiam inferiores aos estrangeiros em razão da falta de títulos mundiais. A máxima rodrigueana explicaria o recorrente pessimismo em relação a qualquer medida que, supostamente, não esteja em sintonia com o que há de melhor em outros países.

    Seguindo nessa linha, podemos citar a derrota humilhante de 7x1 para a Alemanha, na semifinal da Copa do Mundo realizada aqui, em 2014. Esse momento, que, sem dúvida, se tornou uma marca, uma ferida em nossa moral esportiva, também serviu para compreender a nossa distância real para os países de primeiro mundo (ou seria mais um complexo de vira-lata?). O Brasil, diferente do que pensávamos, não decolou conforme a propaganda prometeu. Não éramos uma potência em desenvolvimento. Foi preciso um grande baque, para que a ficha caísse. Estamos falando de futebol, certo? Ou de tudo que culminou no Impeachment e na derrocada econômica?

    Aonde eu quero chegar com isso? Qual é minha tese, afinal? O trunfo do coletivo certamente é o principal caminho. Mas não há uma única resposta.

    Albert Camus, que antes de ser Nobel de Literatura foi goleiro do Racing, da cidade de Argel, talhou uma bela frase sobre o esporte bretão. “Tudo o que eu conheço da moral dos homens eu devo ao futebol”. É, talvez estejamos falando disso o tempo todo.

    ...

    P.S. Para quem gosta do assunto, sugiro assistir ao documentário Os Rebeldes do Futebol, de 2012, do cineasta francês Gilles Rof. O filme é protagonizado por Eric Cantona, que apresenta cinco atletas célebres por misturar a paixão pelo futebol com as causas sociais. Um deles é o brasileiro Sócrates.

    Texto originalmente publicado no site Mínimo Múltiplo

    sexta-feira, 8 de junho de 2018

    O Que Vim Fazer em Saigon?, Por Anthony Bourdain

    Anthony Bourdain se suicidou em um quarto de hotel na França 

    Trecho da crônica A Ferida, publicada no livro Em busca do prato perfeito, um cozinheiro em viagem, de 2003. 

    "Já estava acostumado aos amputados, às vitimas do agente laranja, aos famintos, pobres, garotos de rua de seis anos de idade que você encontra às três da madrugada gritando "Feliz ano novo! Olá! Bye-Bye!" em inglês, e depois aponta para suas bocas e faz "bum bum?". Estou ficando quase indiferente aos garotos famintos, sem pernas, sem braços, cobertos de cicatrizes, desesperançados, dormindo no chão, em triciclos, na beirada do rio. Mas não estava preparado para o homem sem camisa, com um corte de cabelo a la forma de pudim, que me detém na saída do mercado, estendendo a mão. No passado ele sofreu queimaduras e tornou-se uma figura humana quase irreconhecível, a pele transformada numa imensa cicatriz sob a coroa de cabelos pretos. Da cintura para cima (e sabe Deus até onde), a pele é uma cicatriz só; ele não tem lábios, nem nariz, nem sobrancelha. Suas orelhas são como betume, como se tivesse mergulhado e moldado num alto-forno, sendo retirado pouco antes de derreter por completo. Mexe seus dentes como uma abóbora de Halloween, mas não emite um único som através do que foi um dia, uma boca. Sinto um murro no estômago. Minha animação exuberante dos dias e horas anteriores desmorona. Fico paralisado, piscando e pensando na palavra napalm, que oprime cada batida do meu coração. De repente nada mais é divertido. Sinto vergonha. Como pude vir até esta cidade, até este país por razões tão fúteis, cheio de entusiasmo por algo tão...sem sentido, como sabores, texturas, culinária? A famíla daquele homem deve ter sido pulverizada, ele mesmo transformado num boneco desgraçado, como um modelo de cera de madame Tussaud, a pele escorrendo como vela pingando. O que estou fazendo aqui? Escrevendo um livro de merda? Sobre comida? Fazendo um programinha leve e inútil de tevê, um showzinho de bosta? A ficha caiu de uma vez e fiquei me desprezando, odiando o que faço e o fato de estar ali. Imobilizado, piscando nervosamente e suando frio, sinto que todo mundo na rua está me observando, que irradio culpa e desconforto, que qualquer passante vai associar os ferimentos daquele homem a mim e ao meu país. Dou uma espiada nos outros turistas ocidentais que vagueiam por ali com suas bermudas da Banana Republic e suas camisas pólo da Land´s End, suas confortáveis sandálias Weejun e Bierkenstock, e sinto um desejo irracional de assassiná-los. Parecem malignos, comedores de carniça. O Zippo com a inscrição pesa no meu bolso, deixou de ser engraçado, virou uma coisa tão pouco divertida quanto a cabeça encolhida de um amigo morto. Tudo o que comer terá gosto de cinzas daqui pra frente. Fodam-se os livros. Foda-se a televisão. Nem mesmo consigo dar algum dinheiro ao coitado. Tenho as mãos trêmulas, estou inutilizado, tomado pela paranoia, Volto correndo ao quarto refrigerado do New World Hotel, me enrosco na cama ainda desfeita, fico olhando para o teto com os olhos cheios de lágrimas, incapaz de digerir ou entender o que presenciei e impotente para fazer qualquer coisa a respeito. Não saio nem como nada pelas 24 horas seguintes. A equipe de tevê acha que estou tendo um colapso nervoso.
    Saigon...Ainda em Saigon.

    O que vim fazer no Vietnã?"

    quinta-feira, 7 de junho de 2018

    Prefácio de É Isto Um Homem?, de Primo Levi


    Foto do autor. Primeira publicação de É Isto um Homem data de 1947
    Trecho do livro

    Por minha sorte, fui deportado para Auschwitz só em 1944, depois que o governo alemão, em vista da crescente escassez de mão-de-obra, resolveu prolongar a vida média dos prisioneiros a serem eliminados, concedendo sensíveis melhoras em seu nível de vida e suspendendo temporariamente as matanças arbitrárias. Este meu livro, portanto, nada acrescenta, quanto a detalhes atrozes, ao que já é bem conhecido dos leitores de todo o mundo com referência ao tema doloroso dos campos de extermínio. Ele não foi escrito para fazer novas denúncias; poderá, antes, fornecer documentos para um sereno estudo de certos aspectos da alma humana. Muitos, pessoas ou povos, podem chegar a pensar, conscientemente ou não, que "cada estrangeiro é um inimigo". Em geral, essa convicção jaz no fundo das almas como uma infecção latente; manifesta-se apenas em ações esporádicas e não coordenadas; não fica na origem de um sistema de pensamento. Quando isso acontece, porém, quando o dogma não enunciado se torna premissa maior de um silogismo, então, como último elo da corrente, está o Campo de Extermínio. Este é o produto de uma concepção do mundo levada às suas últimas conseqüências com uma lógica rigorosa. Enquanto a concepção subsistir, suas conseqüências nos ameaçam. A história dos campos de extermínio deveria ser compreendida por todos como sinistro sinal de perigo. Sou consciente dos defeitos estruturais do livro e peço desculpas por eles. Se não de fato, pelo menos como intenção e concepção o livro já nasceu nos dias do Campo. A necessidade de contar "aos outros", de tornar "os outros" participantes, alcançou entre nós, antes e depois da libertação, caráter de impulso imediato e violento, até o ponto de competir com outras necessidades elementares. O livro foi escrito para satisfazer essa necessidade em primeiro lugar, portanto, com a finalidade de liberação interior. Daí, seu caráter fragmentário: seus capítulos foram escritos não em sucessão lógica, mas por ordem de urgência. O trabalho de ligação e fusão foi planejado posteriormente. Acho desnecessário acrescentar que nenhum dos episódios foi fruto de imaginação.

    PRIMO LEVI

    sábado, 5 de maio de 2018

    Minha História

    Eu não sabia ser pai quando a enfermeira do Hospital Conceição me disse. "Toma teu filho. Vamos fazer exames na mãe. Caminha um pouco com ele por aí".

    Eu o peguei desajeitado. A mulher acrescentou. "Vai demorar. Vê se canta uma música de ninar. Eles se acalmam".

    No corredor do hospital, o bebê me olhava. Não parecia nervoso, nem com fome, nem com cólica, nem com um princípio de choro. Mas dava a impressão de esperar a tal música.

    Eu tive um branco. Não lembrava ou não sabia nenhuma. Só me veio um trecho de Minha História, de Chico Buarque. "E por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher me ninava cantando cantigas de cabaré".

    Cantei essa pra ele. E fui cantando toda a letra, que devia estar em algum buraco da minha memória. Chorei um pouquinho no "laia laiá". Me senti um idiota por isso, porém, continuei assim mesmo, porque meu filho me olhava e parecia sorrir.

    quarta-feira, 2 de maio de 2018

    A Vitória dos Solitários



    "A vitória dos solitários não tem testemunhas e torna a solidão mais só. Ninguém nos olha com orgulho".

    Isabela Figueiredo

    domingo, 29 de abril de 2018

    Minha Carreira Literária - Roberto Bolaño


    Recusado pela Anagrama, Grijalbo, Planeta, com toda certeza
    também pela Alfaguara, Mondadori. Nãos da Muchnik, Seix Barral, Destino...
    Todas as editoras...
    Todos os leitores...
    Todos os gerentes de vendas...

    Debaixo da ponte, enquanto chove, uma oportunidade de ouro
    de olhar para mim mesmo:
    como uma cobra no Polo Norte, mas escrevendo.

    Escrevendo poesia no país dos imbecis.
    Escrevendo com meu filho no colo.
    Escrevendo até a noite cair
    com um estrondo de mil demônios.
    Os demônios que me levarão ao inferno,
    mas escrevendo.

    ROBERTO BOLAÑO

    *Tradução: Fabiano Calixto

    domingo, 22 de abril de 2018

    João Antônio: "Um dia desses sonhei que havia morrido e só encontraram meu corpo uma semana depois"*


    "Eu acho que vai haver aqui, um problema de tempo. Conversa com João Antônio, é sempre conversa pra uma semana, até porque eu tenho tido um estilo elíptico de pensar, pelo menos quando eu expresso, quando eu verbalizo o meu pensamento. Eu queria transformar essa minha conversa com vocês, muito mais em perguntas e respostas, do que exatamente uma dicção linear minha. Me foi aventado um problema do qual eu tenho falar que é a presença de uma poética dentro da minha ficção, da minha prosa de ficção. Eu sou muito interessado nessa coisa de arte poética.

    Inicialmente, eu gostaria de transformar essa nossa conversa em duas homenagens: uma a um grande músico, que é um dos grandes músicos brasileiros de todos os tempos, infelizmente muito mal conhecido, porque este país é especialista em desconhecer, e até assassinar culturalmente seus melhores filhos. Eu estou falando do maestro Ascendino Theodoro Nogueira, um dos músicos mais respeitados do Brasil, dentro da classe musical, mas que infelizmente não é conhecido neste país. E em segundo lugar eu queria também prestar uma homenagem a um homem que foi fundamental como peça pioneira, inovadora, revolucionária, dentro deste tema sobre o qual eu pretendo falar alguma e que dizem aí que eu entendo alguma coisa. Trata-se de Antônio Fraga, autor de uma novela chamada Desabrigo, pouco conhecida, muito mal distribuída, foi produzida em 1942, é uma novela curtíssima, mas na época criou uma repercussão enorme, até em homens como, por exemplo, Oswald de Andrade. O Fraga morreu recentemente e eu talvez tenha sido o único jornalista brasileiro a escrever sobre ele.

    É uma figura muito curiosa porque é um autodidata, foi expulso de casa logo cedo, filho de pais pobres, nascido no centro do Rio de Janeiro, viveu no Mangue, que era a área de prostituição mais rampeira da cidade, e também mais cosmopolita, que fazia conviver desde marinheiros do mundo inteiro, com mulheres que vinham da Polônia, judias polacas ou polacas judias. Então se formou, inclusive do ponto de vista da linguagem, um elemento muito forte que o Fraga soube aproveitar.