quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Anjo e Demônio - Armando Nogueira Recorda Heleno de Freitas

Jornalista Armando Nogueira (1927 - 2010)
O futebol, fonte de minhas angústias e alegrias, revelou-me, ao longo dos anos, em Heleno de Freitas, a personalidade mais atormentada que conheci nos estádios deste mundo.

Viveu em conflito com o universo do futebol, amado como um Deus, renegado como o demônio: era o espantalho dos árbitros, o gênio da bola, o desafeto das torcidas. Era, também, o galã irresistível das mocinhas de Copacabana que lhe namoravam a elegância, no traje, a rebeldia, o anel de doutor e a celebridade.

Em campo, tinha acessos de fúria, cuspia fogo nos rivais, nos próprios colegas de equipe, no juiz. Só tinha afagos pra conquistar a bola, em cuja convivência realizava sua face de anjo. Era um artista, jogando: driblava com esmero, corria em gestos perfeitos. Enriquecia o futebol com melodias corporais de raro efeito. Poucos craques na história do futebol conseguiram ou conseguirão jogar tão bem de cabeça quanto ele. Costumava dar cabeçadas homéricas.

Heleno de Freitas realizava todas as virtudes de craque com um toque de beleza. Tinha, contudo, a psicose da perfeição: o erro do homem derrotava o artista - e Heleno perdia a cabeça, perdia a razão, perdia o jogo. Transtornado, acabava expulso. Fora de campo, era um cavalheiro, apesar de ter sido sempre marcado por uma sombra de narcisismo que é, por sinal, um dos grandes abismos do ídolo.

Perturbado mentalmente, em 1953, Heleno de Freitas sumia dos estádios. A família, a muito custo, arrancou-o das arquibancadas do Botafogo, onde costumava passar as tardes, sozinho, dia de treino, com o rosto enfiado numa toalha de banho, cheirando éter. Chorava. Quem saberia dizer de quê: saudade? amor? desamor? inveja? abandono? Heleno acabou louco internado no Sanatório de Barbacena.

Dormia abraçado com a bola delirante do jogo de ontem, de hoje, de amanhã, de sempre. Quando acordava, bola murcha, Heleno tornava ao delírio. Heleno de Freitas, o craque das mais belas expressões corporais que conheci nos estádios, morreu, sem gestos, de paralisia progressiva, e descansa, hoje, no Cemitério de São João Nepomuceno, onde nasceu um dia, para jogar a própria vida num match sem intervalo entre a glória e a desgraça.

Crônica publicada no Jornal do Brasil, dia 11 de novembro de 1970.