terça-feira, 15 de agosto de 2017

Reunião no Bunker e Uma Sugestão de Leitura


- Bom, gente! Agradeço a presença de todos. O tema Judeus já foi superado. A partir de agora, o esquema é o seguinte: vamos conquistar a Europa. No mapa que a turma do Goebbels fez aqui dá pra ver o trajeto das tropas. Quem não se aliar conosco, será considerado...

- Desculpe interromper, Führer.

- Sim?

- O senhor ainda não disse se somos de direita ou esquerda. Esse tema está pendente há quatro encontros. Acho relevante uma definição o quanto antes.

- Hum... Verdade. Falta essa definição. Mas depois que conquistarmos a União Soviética a gente vê isso aí.

-----

Sugestão de leitura


Nesses tempos tristes, de neonazistas em marcha pelos EUA, essa leitura é uma boa indicação. Personagem principal de Diário da Queda, de Michel Laub, é neto de um sobrevivente de Auschwitz.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Anjo e Demônio - Armando Nogueira Recorda Heleno de Freitas

Jornalista Armando Nogueira (1927 - 2010)
O futebol, fonte de minhas angústias e alegrias, revelou-me, ao longo dos anos, em Heleno de Freitas, a personalidade mais atormentada que conheci nos estádios deste mundo.

Viveu em conflito com o universo do futebol, amado como um Deus, renegado como o demônio: era o espantalho dos árbitros, o gênio da bola, o desafeto das torcidas. Era, também, o galã irresistível das mocinhas de Copacabana que lhe namoravam a elegância, no traje, a rebeldia, o anel de doutor e a celebridade.

Em campo, tinha acessos de fúria, cuspia fogo nos rivais, nos próprios colegas de equipe, no juiz. Só tinha afagos pra conquistar a bola, em cuja convivência realizava sua face de anjo. Era um artista, jogando: driblava com esmero, corria em gestos perfeitos. Enriquecia o futebol com melodias corporais de raro efeito. Poucos craques na história do futebol conseguiram ou conseguirão jogar tão bem de cabeça quanto ele. Costumava dar cabeçadas homéricas.

Heleno de Freitas realizava todas as virtudes de craque com um toque de beleza. Tinha, contudo, a psicose da perfeição: o erro do homem derrotava o artista - e Heleno perdia a cabeça, perdia a razão, perdia o jogo. Transtornado, acabava expulso. Fora de campo, era um cavalheiro, apesar de ter sido sempre marcado por uma sombra de narcisismo que é, por sinal, um dos grandes abismos do ídolo.

Perturbado mentalmente, em 1953, Heleno de Freitas sumia dos estádios. A família, a muito custo, arrancou-o das arquibancadas do Botafogo, onde costumava passar as tardes, sozinho, dia de treino, com o rosto enfiado numa toalha de banho, cheirando éter. Chorava. Quem saberia dizer de quê: saudade? amor? desamor? inveja? abandono? Heleno acabou louco internado no Sanatório de Barbacena.

Dormia abraçado com a bola delirante do jogo de ontem, de hoje, de amanhã, de sempre. Quando acordava, bola murcha, Heleno tornava ao delírio. Heleno de Freitas, o craque das mais belas expressões corporais que conheci nos estádios, morreu, sem gestos, de paralisia progressiva, e descansa, hoje, no Cemitério de São João Nepomuceno, onde nasceu um dia, para jogar a própria vida num match sem intervalo entre a glória e a desgraça.

Crônica publicada no Jornal do Brasil, dia 11 de novembro de 1970. 

sábado, 5 de agosto de 2017

Um Livro Que Me Deixou Zonzo - Árvores Abatidas


Sempre tive inveja de quem consegue ler em carro ou ônibus. Comigo isso é impossível. Se eu passar os olhos numa notinha de jornal, já basta pra ficar enjoado e me estragar o resto do dia. Quando não acontece coisa pior.

Demorei pra descobrir a causa. Tá certo que o SUS não ajudou. Nas vezes que estive no Pronto Socorro me deram um Plasil e tchau e benção. Só acharam o problema quando comecei a cair sozinho. Daí, um médico cravou: “Tu tem vertigem posicional crônica”.

E completou: “Tem remédio. Tem tratamento. É uma doencinha. Não te preocupa”.

O curioso é que ler no trem eu consigo. Nos oito anos que fiz a rota Porto Alegre/São Leopoldo, li muita coisa boa – também detonei um discman, mas isso é outra história. Retirava os exemplares da biblioteca da Unisinos. Nos quarenta minutos do itinerário, conheci Albert Camus (A Peste), Murilo Mendes (As metamorfoses), Katherine Mansfield (Felicidade), Campos de Carvalho (A lua vem da ásia), John Fante (A caminho de Los Angeles)... e Thomas Bernhard.

Não sei como esse autor foi parar na minha mão – desconfio que tava procurando Thomas Mann... Árvores Abatidas era o título. O enredo era simplório: um jantar. O narrador-personagem fica sentado numa cadeira, observando os preparativos para o evento e divagando. Passa a trama toda espinafrando a Áustria, Viena, os artistas, os intelectuais, os dogmas europeus, as ideologias políticas. Bernhard não poupa ninguém. Claro, nem ele próprio. A edição não tem capítulos. Texto corrido em apenas um parágrafo imenso. Um jorro só. Um queixume.

Explicando assim não parece, mas é um grande livro.

Talvez, tenha sido o ideal para um jovem indignado como eu era. Um jovem que pegava o trem das 22h20 e tinha que correr para alcançar o ônibus das 23h20 para chegar em casa antes da meia-noite.

Entretanto, a qualidade estética de Bernhard está acima de qualquer experiência de leitor. Problema é encontrá-lo em livrarias ou sebos. É raro achar exemplar desse livro à venda. Os que existem, usados, ultrapassam os R$ 200. Há outros títulos mais em conta.

Enfim, retomando o causo do início. Árvores Abatidas foi o livro que me deixou zonzo, me tirou o prumo. Escancarou uma possibilidade, uma realidade, que é a vida, que é a arte. Essa doencinha, que tem remédio, que tem tratamento. E nos preocupa tanto.

------

Mais sobre o autor nesse artigo de Antônio Xerxenesky - 
http://blogdoims.com.br/thomas-bernhard-repeticao-e-aniquilacao-por-antonio-xerxenesky/  

A imagem com a citação é do livro O sobrinho de Wittgenstein.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Algumas Leituras de Um Silêncio Avassalador


Após um ano do lançamento, separei algumas leituras de Um Silêncio Avassalador, que foram publicadas em jornais, sites e blogs literários.


"A obra é dessas leituras que você faz numa tarde, tornando o dia preenchido por algum tipo de texto que faz tudo ficar um pouco melhor"
Até Que Um Ponto, blog


“A escrita do autor flui de maneira primorosa, com uma linguagem versátil que transita desde o vulgar até o poético”
Toque Literário, blog


“Tristeza, melancolia e a ferocidade dos personagens em se encontrar em algum lugar no mundo e na sociedade é o ponto alto desse livro”
Lendo 1 Bom Livro, site


“Bem escrito, a obra surpreende pela honestidade”
Duas Estantes, site


“Com uma sinceridade que chega a ser chocante, o autor cria uma conexão personagem-leitor, convidando a todos a realizar uma reflexão intensa a respeito da frágil natureza do ser humano”
Livro In Cena, blog


“A escrita de Lucas Barroso não perde em nada para os autores nacionais contemporâneos de peso. É uma bela surpresa ver um livro brasileiro publicado com tantos cuidados”
Pandamônio, site


“Alternando personagens de diferentes meios, idades, homens ou mulheres, o autor escreve com agilidade e consegue extrair deles sempre algum deslocamento e uma certa dificuldade de viver em sociedade”
Diário de Pernambuco, jornal


“São histórias de sexo e violência - simbólica ou não - que põem em cheque nossa humanidade”
O Povo, jornal


“Uma leitura que irá ecoar por um bom tempo. Lucas Barroso é esse tipo de escritor, que irá te acompanhar por muitos dias depois da última página de seu inquietante livro”
Adalberto Souza, Jornal de Alagoas


“Os personagens vão mostrando suas motivações e sentimentos no decorrer dos textos e é tão palpável que o leitor pode se sentir como se fizesse parte daquela história”
Minha Contracapa, site


“O ritmo das histórias convida o leitor a permanecer focado no livro até a última página”
Marcelo Kenne Vicente, Medium


“O autor não faz concessão em momento algum da obra. (...) Os contos lembram bastante as histórias de Raymond Carver, sempre terminando de uma forma incomum, como se continuassem depois do ponto final”
Angústia Criadora, site

.........

No link, dá para ler as resenhas na íntegra, além de entrevistas para rádios e comentários em canais do Youtube (http://lsbarroso.blogspot.com.br/p/livros-publicados.html).

.........

O livro está à venda (e-book e físico) no site da editora Moinhos http://editoramoinhos.com.br/loja/um-silencio-avassalador/. É possível adquirir também no site da livraria Cultura, Google Play, Amazon e Estante Virtual

quinta-feira, 13 de julho de 2017

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Os Cães São Fiéis / Fiéis Até Aos Homens Maus


Deixa esses versos envelhecerem
Sem companhia
Deixa assistirem mais uma guerra
E mais quantas forem preciso
Até que esses versos
Tenham um sentido
Maior que essa destruição
Maior que esse novo mundo
Que renasce
Da guerra
Que esses versos
Estão cansados
De ver

Deixa esses versos
Nas mãos dos soldados derrotados
Bata em retirada
E assista a tudo
De algum lugar
Ao longe

De algum lugar
Onde os animais selvagens fiquem a sós
Com seus pensamentos

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Tarde Demais - Crônica de Ruy Castro


RIO DE JANEIRO - Há anos, passando em frente a uma lavanderia da Lapa, algo me chamou a atenção: uma pilha de 50 ou 60 discos de 78 rpm, no chão, na porta do estabelecimento. Velho fuçador de sebos, abaixei-me para examinar. O primeiro da pilha já era espetacular: um disco da gravadora Sinter, apresentando um choro no lado A e um "bop" no lado B. Intérpretes: "Os melhores de 53".

E quem eram "os melhores de 53"? A lista vinha impressa no selo: entre outros, os saxofonistas Zé Bodega e Cipó; o trompetista Julio Barbosa; o trombonista Nelsinho; o clarinetista Severino Araújo; o pianista Radamés Gnatalli; o baterista Luciano Perrone; e outro saxofonista, Paulo Moura. Em 1953, Paulo Moura tinha 20 anos, mas já podia sentar-se entre aqueles mestres. E o fato de o disco conter um choro e um tema puxado ao jazz indicava as duas direções de sua carreira.

Folheei os outros discos e nenhum me interessou. Perguntei ao homem do balcão se estavam à venda. Respondeu que eram de graça -desde que eu levasse todos. Não os jogara fora há mais tempo porque tivera pena, um deles poderia interessar a alguém. Não discuti. Fiz sinal para um táxi, e o motorista me ajudou no carreto das bolachas para o banco traseiro. Já o dos "Melhores de 53" foi a salvo comigo, preso pelas duas mãos.

E até hoje o tenho. Mas, agora, com um travo de remorso. Certa vez, falei desse disco ao próprio Paulo Moura. Ele disse que já não o tinha havia décadas e lamentava que nunca mais voltaria a escutá-lo. Prometi-lhe uma cópia, mas, com as idas e vindas da vida, o disco sumiu de minhas vistas. Estive com Paulo muitas vezes, e ele, elegantíssimo, nunca me cobrou. Eu é que me sentia em dívida.
Pois, esta semana, reencontrei o disco em casa, numa estante. E me comovi ao ler o título do choro -"Agora É Tarde Demais"-, porque Paulo acabara de morrer.


Crônica publicada na Folha de São Paulo, em 17/7/2010

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A Paixão é Cega e Vem montada num burro

"A paixão é cega e vem montada num burro", diz o ditado.

Recordo essa máxima, porque a tendência é que as pessoas que defendem Lula/Dilma e Aécio/Temer (enrustidos ou escancarados) sigam assim. Indiferente a conclusão da Justiça. Essa de "vamos aguardar" é uma balela.

Ninguém (pelo menos que eu conheça) mudou sua opinião em relação a Collor, absolvido pela Justiça em 2014 pelos supostos (?) crimes de corrupção em 92. Ninguém esperou para tirar suas conclusões.

Quem o chamava de ladrão na ocasião, mantém sua postura (falo por mim também). Mesmo que as provas/evidências não tenham sido suficientes para uma punição.

É assim que funciona. A gente nem nota que o príncipe encantado não veio montado no cavalo branco e, sim, em um burro. Porque a gente só tem olhos para o príncipe.

-------

STF absolve Collor por crimes de corrupção da época em que era presidente

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Dois Galãs - Conto de James Joyce


James Joyce, no centro da foto


Dois trechos do conto Dois Galãs, do livro Dublinenses (edição de 1993, editora Siciliano), de James Joyce.


Caminhou a esmo por Stephen’s Green e desceu a Grafton Street. Embora seus olhos captassem uma série de detalhes da multidão a sua volta, a observação era feita de uma maneira morosa. Achava banal tudo o que supostamente deveria agradá-lo e não correspondia aos olhares convidativos que o cercavam. Sabia que teria de falar muito, inventar histórias e fazer graça, mas tanto o seu cérebro quanto a garganta estavam secos demais para realizar tal proeza. A questão de como passar o tempo até chegar a hora de encontrar-se com Corley preocupava-o um pouco. Não via outra coisa a fazer, a não ser continuar caminhando. Dobrou à esquerda quando chegou na esquina da Rutland Square e sentiu-se mais à vontade na rua escura e quieta, cujo aspecto soturno veio a calhar com seu estado de espírito. 

(...)

Estava cansado de dar cabeçadas, de fazer das tripas coração, de artimanhas e intrigas. Completaria trinta e um anos de idade em novembro. Será que nunca conseguiria um emprego? Será que nunca teria um lar? Como seria bom poder sentar-se diante de uma lareira e um jantar gostoso. Já perambulara demais pelas ruas com amigos e mulheres. Bem sabia o quanto valia essa gente. Certas experiências haviam tornado seu coração amargo com respeito ao mundo. Mas ainda tinha um pouco de esperança. Sentiu-se melhor depois de comer, menos revoltado com a vida, menos abatido espiritualmente. Quem sabe ainda conseguiria fixar-se em algum lugar agradável e ter um pouco de felicidade; tudo que precisava era encontrar uma garota bobinha e com um pouco de dinheiro.

terça-feira, 18 de abril de 2017

O Tempo do Lobo, Filme de Michael Haneke



Um drama sobre refugiados. Sobre barbárie e esperança. O Tempo do Lobo, filme de 2003, dirigido por Michael Haneke.

Abaixo, a carta que a personagem Ana escreve a seu pai.


Querido papai,

Agora, que encontrei caneta e papel preciso te escrever. Tanta coisa está acontecendo e não há ninguém a quem eu possa falar. Eu não sei se você pode ver, ou ouvir, ou ler isso, ou mesmo se você pode sentir qualquer coisa. Mas quero tanto acreditar que você pode. Meu muito querido papai... É tão difícil colocar isso em palavras quando não há ninguém a quem falar. Parece que estou sufocando. Você poderia perguntar, por que não falo com Benny ou a mãe. Mas eu não posso. Você saberia disso, se estivesse aqui. Tenho de pensar em cada palavra que digo a mamãe, porque senão ela pode ter um colapso. Suas mãos estão sempre tremendo e eu não posso ajudá-la.  Eu não acho que Benny possa entender, como você pode entender, papai. E também tem esse menino. Eu poderia falar com ele. Mas ele age com tanto orgulho e é como se ele não se importasse com nada. Mesmo que eu saiba que não é esse o caso. Deve estar parecendo muito confuso para você. Mas essa é a principal razão porque eu estou escrevendo. Minha esperança é que, por escrito, isso faça sentido. Eu quero contar para você uma coisa, depois outra. De modo que você possa entender a vida que estamos levando. 



quinta-feira, 6 de abril de 2017

Discografia Essencial - Meu Nome é Gileno (1976)


Meu Nome é Gileno - Leno (1976)

Discaço! Não está em nenhuma lista de melhores, não é citado por nenhum especialista como discografia básica. Bom... o problema é deles.


sábado, 1 de abril de 2017

Como Vovó Já Dizia


Eu perguntava como estavam as coisas e minha vó encarreirava problemas e brigas. O vizinho, o amigo, o parente. Um deles tinha lhe aprontado. E ela tinha sempre a razão. Segundo a velha, a atitude certa era sumir. Ir pra bem longe. Tinha certeza que ninguém daria falta.

Eu dizia pra ela não falar bobagem. A velha ia pra cozinha braba. Guardava umas louças, fazia uma bateção desgraçada nos armários e de lá comentava, naquele tom de quem fala sozinho.

- E tem mais. Eu não sou dinheiro pra todo mundo gostar de mim

sexta-feira, 31 de março de 2017

Ninguém Deve Ser Uma Ilha


Há um espírito de manada, de conexões e redes, pautando o modo de ver o mundo. As coisas que nos cercam devem ser observadas sob certos aspectos, por teses pré-determinadas. Algo como: “se você não sabe, jogue no Google e ele lhe dará a resposta” ou “vou atrás do que disse Fulano sobre esse assunto para ter uma opinião formada”. Como se houvesse apenas uma resposta pela qual optar.

É um sentimento comum, cosmopolita. Grandes cidades, pessoas conectadas, próximas (real ou virtualmente), vivenciando o caos, unidas por um ideal. Esse, em muitos casos, superado ou que não representa nada de novo.

Vivemos um período de embrutecimento dos debates. Parece ser uma marca de nosso tempo. O maniqueísmo a que estamos expostos é uma chaga antiga e que, mesmo na diversidade deste “novo milênio”, parece ser a única saída para se ter razão. O próprio conceito de “ter razão” ainda não ter sido superado é algo assustador. Por que é relevante ter razão, “vencer” uma discussão?

As visões políticas de esquerda e direita são apenas dois exemplos claros que nos rodeiam. Não há como evitá-los. Qualquer tentativa de junção ou afastamento dessas correntes mesquinhas significa fuga da realidade. Afinal, é inconcebível que algo convirja de lados opostos. Buscar aproximar esses paralelos resulta em uma pretensa neutralidade, imparcialidade ou isenção. Neste contexto de guerrilha que vivemos, de luta pela verdade, acaba se tornando uma péssima saída.

Seria como, retornando ao conceito de cidade, isolar-se no interior, onde só existe mato, em uma casa sem eletricidade e saneamento básico. À noite, nosso personagem hipotético deve acender uma fogueira com pedras e uivar para a lua.

O cenário é de brutalidade, e não estar em nenhum lado desse “bom combate” significa ser cúmplice do lado oposto. Como no clichê “quem cala consente”, ou no volta e meia lembrado “Brasil: ame-o ou deixe-o”. Não há saída. Você terá que optar por uma das portas disponíveis. Ao abri-la, a impressão é de que tudo já está escrito e catalogado. Mesmo assim, você deve seguir. Escolha uma ideologia pronta para cada fenômeno que surgir. As cartilhas e lugares-comuns se tornarão mantras repetidos à exaustão. Pronto. Você é mais um na multidão. Do outro lado da rua existe a outra.

Quem adere a esses movimentos, além de obter um sentido para a vida, percebe o quanto essa vida é simples e repleta de significados “superiores”. Aliás, aí está um termo comumente utilizado por quem tem essa fé cega: simples. Há imigrantes ilegais? Simples. Construa-se um muro na fronteira. Não há mais segurança? Simples. Basta armar a população ou retomar a presença do Exército nas ruas. Seu partido sempre se disse “ético”, mas foi flagrado em operações criminosas? Simples. Diga que é tudo invenção da mídia.

Mesmo diante de um vasto mundo, repleto de possibilidades, nos sobram poucas alternativas. Temos as soluções fáceis e os discursos prontos à disposição para estarmos inseridos num contexto, para existirmos. Cabe a nós apenas compartilhar, curtir, registrar, pois ninguém quer ser só, pois ninguém deve ser uma ilha.

--------------------------

Texto originalmente publicado no site Mínimo Múltiplo - http://minimomultiplo.com/index.php?page=283 

Sobre esse mesmo assunto, há uma ótima esquete do Monty Python: A vantagem de ser um extremista - https://www.youtube.com/watch?v=IfxewiOu9_k

sábado, 11 de março de 2017

Dia dos Pais


- Meu pai era horrível. Me ofendia de tudo quando era pequeno.
- O meu era pior. Me batia.
- Mas o meu também me batia. Me surrava com tapa na cabeça.
- Isso não é nada. Eu apanhava de relho.
- Falei dos tapas. Mas ele me espancava mesmo era com um pedaço do pau. 
- Já levei com as costas do facão no lombo.
- Eu tomei até tiro do meu velho.
- Se é por isso, eu fiquei em coma um mês depois duma tunda.
- E eu morri uma vez. 
- É... teu pai era mesmo muito ignorante. O meu nunca chegou a tanto.

terça-feira, 7 de março de 2017

Ervilhas


Eu tava na outra fila do buffet, quando vi uma senhora, aparentando mais de 90 anos, encher seu prato de ervilhas. Foram seis colheradas.

- Não sabia que tu gostava tanto de ervilha assim, vó - disse o homem, já grisalho, que a acompanhava.
- Sim. Como desde sempre.

Voltei uns passos e, prontamente, toquei ervilha por cima de tudo que tinha servido. Porque eu quero viver bastante.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O Azedume no Rádio - Crônica de Paulo Sant'ana


Hoje vou falar sobre um fato que me provoca engulhos: os apresentadores de programas de rádio que são mal-humorados, azedos.

Houve recentemente um apresentador de programa de rádio que passou xingando, durante 15 anos, todos os ouvintes que ele entrevistava.

Isso devia causar revolta nos entrevistados, mas nos ouvintes em geral causava espanto que se entregasse o microfone de uma rádio para um profissional desancar os entrevistados em todas as entrevistas.

Durante 15 anos, foi aquele mal-estar entre os ouvintes daquele programa. Era pau e pau no ouvinte, mas não era um pau e pau cordial, tipo brincadeira. Era pau e pau severo, pancadaria verbal amaríssima (vem de amargo) sobre os entrevistados.

Foi uma página triste do rádio gaúcho.

Mas há ainda muitos outros apresentadores de programas mal-humorados. A gente está engarrafado no trânsito e fica ouvindo os mal-humorados do rádio espalhando com metástase o seu azedume entre os ouvintes.

Não há nada pior do que estar engarrafado numa das avenidas porto-alegrenses e receber no rádio aquela onda de acidez humoral despejada no microfone pelos mal-humorados que apresentam certos programas. O engarrafamento fica mais longo, penoso e insuportável.

Não posso entender, sinceramente, que se utilize o rádio para transmitir amargor permanentemente.

Rádio não é lugar para mal-humorado trabalhar. Que busque outra atividade, talvez como segurança, mas não infringindo o apostolado de alegria e cordialidade que deve caracterizar as transmissões radiofônicas.

Há dias, eu tinha de ir a Esteio para uma reunião com membros de uma imobiliária que me fizeram uma trampolinagem.

Eu estava decidido a botar pra quebrar nessa reunião. Queria lascar o pau verbal nos autores da falsa esperteza em que quiseram me envolver.

Então planejei o seguinte: marquei a reunião lá para Esteio para um horário logo em seguida a um programa de rádio apresentado por um desses azedinhos que não têm jogo de cadeiras e inculcam seu mau humor nos ouvintes.

Fui ouvindo durante 50 minutos o programa do apresentador mal-humorado. Fui me irritando pela BR-116 e, quando cheguei à reunião, eu estava no ponto, na ponta dos cascos para a intervenção severa e mal-humorada que eu tinha de apresentar na reunião.

Em meio ao meu discurso ácido, as pessoas que eu xinguei impavidamente chegaram a me oferecer um sal de frutas para tentar me suavizar.

Mas consegui me safar da encrenca de Esteio massageado pelo programa mal-humorado que fui ouvindo até lá.

Por outra parte, para ser justo, há muitos apresentadores de programas de rádio que são alegres e cordiais, infundem otimismo nos ouvintes, principalmente pelas manhãs, quando todos estão iniciando o dia e necessitam levantar o astral.

Portanto, abaixo o mau humor no rádio, viva o contentamento no rádio. Sejam otimistas e alvissareiros os apresentadores de programas de rádio, espalhem bom astral para seus ouvintes, já que na maioria das vezes as pessoas ligam o rádio para ver se ele as ajuda para saírem de sua aflições.

E um dos deveres principais do rádio é o de socorrer as pessoas preocupadas ou aflitas.

---------------------------

Crônica de Paulo Santana. Publicada originalmente no jornal Zero Hora, em 23 de setembro de 2012.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Piá Injuriado


Aconteceu na linha T6.

O piá trazia um caminhãozinho nos braços. Quieto, tava sentado com a vó no banco vermelho, o assento preferencial dos idosos, obesos, grávidas. Com o ônibus cheio, logo uma velha encostou próximo a dupla.

- Cléverson, deixa a senhora sentar.

Cléverson saiu. Ficou em pé. Mas segundos depois soltou essa.

- Mas isso é injusto.
- É injusto o quê? – perguntou a vó.
- Eu cheguei primeiro.
- Tu tem que dar lugar pros mais velhos, sabia?
- Eu sei. Mas é que eu cheguei primeiro.
- Não interessa quando tu chegou. Os bancos vermelhos são pros  idosos sentarem.
- Mas eu já disse que cheguei primeiroooooooooooo!

A velha que acabara de sentar, manteve o rosto firme. Sequer olhava a birra. A vó ralhou com seu netinho.

- Fica quieto! Esse lugar é da senhora aqui, viu? Seu mal criado!

Com a voz murcha o moleque rebateu.

- Eu sei que sou mal criado... mas é que eu cheguei primeiro, vó.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

A Vida É Assim Mesmo


Melhor é comprar dos dogrados. É menos da metade do preço. Se pechinchar, sai uns 10% do valor da loja. Era sua justificativa quando aparecia com algo de segunda mão em casa.

Dessa maneira, já tinha adquirido um ventilador de teto, computador, som 3 em 1, processador de alimentos, barbeador elétrico, escova alisadora e chapinha, ocúlos de sol, roupas, sapatos... Produtos de última geração e marcas de qualidade.

A esposa ficava chateada, mas utilizava as bugigangas. Um tanto a contragosto, é bem verdade, pois sua consciência pesava, principalmente, à noite, antes de dormir. Nesses momentos, cutucava o marido e puxava assunto. Dividia sua angústia. Mesmo se fosse às duas da madrugada.

- Hoje, uma senhora desesperada veio até aqui tentar recuperar uma panela de pressão.
- O quê?!

A velha afirmou que seu neto tinha vendido a tal panela "novinha". Desconfiava que eles eram os compradores.

- Temos a mesma panela há um tempão! - ele disse.
- Eu sei, amor.
- E o que tu fez?
- Falei que não compramos. Mas coitada... tu tinha que ver a cara da senhora. Tava acabada.
- Coitado de mim, que me ralo o dia inteiro trabalhando e não ganho merda nenhuma.
- Imagina ficar sem panela de pressão...
- Para com isso! Tu não quer que compre mais coisas de drogados, é isso?
- Não é isso...
- Tu quer ficar pagando carnê, tu prefere não ter porra nenhuma em casa, é isso?
- Tá bom, chega dessa conversa. Vamos dormir, amor. Desculpa por ter te acordado - ela concluiu, porque tinha trauma de contas e seu nome estava sujo há anos.

Virou pro lado e pensou que, no fundo, seu marido tinha razão. Azar dos crackeiros, que se fudessem. Eles e suas famílias. Estava se lixando. Não mandou ninguém se meter com droga. As mães e vós deles que se virassem. A vida é assim mesmo. Pensava isso de coração, pois primeiro queria o melhor para si. Sofreu demais com a pobreza. Agora, merecia desfrutar as coisas boas da vida, em sua casinha e com seu homem.

E que Deus tratasse de lhe perdoar e, também, de lhe devolver o sono, que ela havia acabado de perder.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Em Um Bar Da Zona Norte


Mesmo homens calejados de quase quarenta, cinquenta ou beirando os sessenta sentem a barra. Ainda mais bebendo. Porque o trago sensibiliza demais as pessoas. E foi num momento de alto teor alcoólico que alguém decidiu colocar a caixa de som para fora do bar, na calçada, com o disco da Marília Mendonça.

Não demorou muito e o primeiro começou a chorar. Saudade da ex-mulher. Ela foi embora porque ele “não prestava”. O segundo foi consolar o amigo e desabou também. O filho tinha vergonha do pai cachaceiro. O terceiro estava desempregado há tempo e chorou calado, com o cigarro se acabando entre os dedos.

O disco estava na metade quando chegou a polícia.

- Tenho reclamação de som alto aqui – disse o brigadiano.

Um soldado de 26 anos, vindo de Rosário do Sul. Deixou a família para trás. Mulher e dois filhos pequenos. Veio tentar carreira em Porto Alegre.

Não bebeu nada. Mas chorou da mesma forma, porque não é fácil pra ninguém.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Todos Os Frangos do Mercado


- A senhora não pode comprar todas as sobrecoxas do mercado.
- Por que não?
- Porque isso aqui não é atacado. Tem limite por cliente. 
- E qual é?
- Uma caixa.
- Onde diz isso? 
- Eu tô falando pra senhora.
- Então, eu vou pagar, sair, voltar e comprar de novo. Quero ver tu me proibir!
- Já falei que não pode.
- Isso é um absurdo! Eu vou te denunciar.
- Mas a senhora...
- Cala essa tua boca que eu vou ligar pro Balanço Geral e é agora!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Queijo E Graxa


Dois mecânicos.

- Que história é essa que tu só come queijo roquefort?
- Verdade.
- É coisa da tua mulher?
- Não. Eu que gosto.
- Tu tá maluco! Melhor é lanche. Ou um colonial.
- Já comeu roquefort?
- Não. Muito caro.
- Então, nem te apresenta.
- No Super Kan não tem esse queijo, acho.
- Eu não piso no Kan, Deus me livre!
- Ah, tá?! E onde tu vai?
- Só no Zaffari.
- Mas tu mora na Tinga e não vai no Kan?
- Pra tu ver...

Ele interrompeu a conversa e veio em minha direção.

- Feito chefe! Trocamo o óleo e o filtro do teu Uninho. Tá tudo certo. Só acertar ali no caixa.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Minha Aventura No Jornalismo Fictício


Minha ideia era utilizar o formato jornalístico (a tal pirâmide invertida) e inserir mentiras ao invés de fatos. O recheio seria escrever algo próximo da verdade, um texto bem construído, que pudesse enganar o leitor. "Jornalismo fictício" era o nome. Uma afronta. Uma bobagem de universitário. O ano era 2006, mês de junho, quando coloquei no ar o blog A Pipa do Vovô.

Os amigos da Unisinos aprovaram e ajudaram a disseminar. Em pouco tempo, o garoto-propaganda das Casas Bahia, o ator Fabiano Augusto, queria me processar, porque um site o tinha matado e ele estava perdendo trabalho por causa disso.

As "notícias", muitas delas sem noção, foram rendendo cliques e cheguei a dar entrevistas para TVCom, programa Camarote, e rádio Gaúcha, Sábado Esporte Show, ambas mídias locais. Antonio Tabet, do então Kibeloco (criado em 2002), me contatou, pois queria ampliar seu site e publicar aquelas maluquices "do caralho". Mandou um email e depois ligou. "Topa vir pro Rio?". "Topo!".

Ficou nisso. Fogo de palha. Uma piada de guri. Depois, outros guris mais espertos levaram isso a sério e criaram páginas que existem até hoje, como O Bairrista (no ar desde janeiro de 2011), O Sensacionalista (2009), The Piauí Herald (2009)...

Tenho amigos e professores que ainda lembram desse período. "E A Pipa do Vovô, como vai?", sempre me pergunta o Sérgio Endler, que lembra o caso de um colega seu, professor de Ética, que ficou indignado com "a palhaçada".

Mas um dia eles vão esquecer de tudo isso.

Eu não. Quando for velho, gordo, careca-cabeludo, afundado em um clichê qualquer, ainda vou lembrar. E os que ouvirem essa minha ladainha vão rir. "Quem esse velho pensa que é?".

-----

Ps: Segundo consta, o pioneiro do jornalismo ou noticiário satírico foi o norte-americano The Onion, com publicação em 1988. No Brasil, os comediantes do Casseta e Planeta (Casseta Popular e Planeta Diário), a partir da década de 80, utilizaram muito do jornalismo em seus textos no impresso, rádio e tv. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Experiência da Escassez


Às vezes, me vejo outra vez - quase sempre à noite. E busco sentido onde não há.

Olhando pra trás, fica tudo mais curioso ainda. Bairro São Sebastião, Zona Norte. Escola Ana Neri. Um pavilhão de madeira. E uma biblioteca mínima.

Disso, saiu um leitor, um escritor. Mesmo sem livros em casa. Mesmo sem amigos ou parentes leitores. Mesmo sem a "cultura" ou a "formação" adequada. Mesmo assim, há alguém que teima com a Literatura.

Porque a Literatura abraça e ilude qualquer um.

domingo, 8 de janeiro de 2017

sábado, 7 de janeiro de 2017

Colega de Trabalho


Ele sempre foi um chato. Um chato extremo. Desses que a única saída, numa conversa, é desligar o cérebro ou buscar pensar em outra coisa, enquanto ele tece suas teses diárias. E como a criatura fala!

Panorama político nacional. Macro economia. Situação atual dos Estados Unidos e Europa. Combates no Leste Europeu e Oriente Médio. Classificação do campeonato. Agenda cultural. Por essas e outras que já não leio os periódicos.

O problema é que não há opções de fuga, porque ele não é de deixar alternativas. Geralmente, tem por hábito embretar o interlocutor no corredor de um metro e meio de largura. Deixando-o impaciente, como um boi antes de acessar a arena - que é qualquer uma das saletas da firma.

Entretanto, nesse calor intolerável que anda fazendo, é uma boa topar com ele. Aturar sua chatice por instantes é refrescante. Pois ele, quando fala, lança uma porção de perdigotos. Tem altura média, cerca de 1.75 m. Então, seus mililitros de saliva alcançam a face de quase todos os interpelados.

Equivale a lavar o rosto antes de iniciar o dia de trabalho.