quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Entrevista com Ian McEwan

É sempre bom saber o que Ian McEwan pensa. O autor de Na Praia, Serena, A Balada de Adam Henry, entre outros, contou um pouco de sua história nessa ótima entrevista ao El País. Separei duas respostas, o bate-papo completo está no link abaixo.



"Uma das noções mais destrutivas da história do pensamento humano é a utopia. A ideia de que é possível formar uma sociedade perfeita, seja nesta vida ou em outra posterior, é muito destrutiva. Porque a consequência é que não importa se você matou um milhão de pessoas no caminho: o objetivo é a perfeição e isso desculpa qualquer crime. É uma fantasia que teve seus equivalentes seculares, no comunismo soviético, por exemplo, e também com os nazistas. A ideia da redenção, uma ideia milenar, sempre exige inimigos".

"Quando jovem, trabalhei seis meses como lixeiro em Camden, pendurado em um caminhão. E me dei conta de que, entre as pessoas com quem comia alguma coisa nos descansos, a variedade de inteligências era igual a se estivesse na universidade. Havia idiotas e pessoas brilhantes. Me fez compreender como a sorte e o acidente do nascimento determinam quem você é". 

Entrevista completa aqui.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Dominguinhos, Muito Mais Que Um Coadjuvante


Sempre vi o Dominguinhos como um coadjuvante em nossa música popular. Um grande instrumentista, tocou com os grandes da MPB, aquela coisa... Mas esse disco de 1977, Oi, Lá Vou Eu!, comprova que eu tava por fora.

João Donato, Hermeto Pascoal, Wagner Tiso e Jackson do pandeiro desfilam pelas 12 músicas, quase todas (10) compostas por Dominguinhos e Anastacia (cantora que foi uma das grandes paixões do sanfoneiro). Uma melhor que a outra.

Coisa Fina!


Os seus discos posteriores, Após Tá Certo (1979), Querubim (1981), Simplicidade (1982) e Isso Aqui Tá Bom Demais (1985) também são fora de série. Corram atrás da discografia de Dominguinhos!

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O Maior Verso Que Paulo Vanzolini Escreveu


Paulo Vanzolini foi um dos maiores compositores da nossa música. Letrista de primeira. O que poucos sabem é que sua formação era em Zoologia. Foi um cientista muito respeitado, com estudos em Harvard.

O autor de Ronda, Volta por Cima e outros clássicos começou a gostar sambas quando ouviu um homem declamar em um terreiro “Malandro se na minha cara der/ Tem que fazer testamento/ E deixar tudo pra mulher/ Se tiver filho vai deixar recordação/ Cara que mamãe beijou/ Vagabundo nenhum põe a mão”.

A partir daí, acreditou que poderia ser um compositor. Vanzolini gostava de um trago, da noite e de uma conversa comprida. Era um contador de histórias nato. Se vocês tiverem a oportunidade, vejam o documentário Um Homem de Moral (2009, direção de Ricardo Dias) e atestem o que estou falando.

Certa vez, perguntaram pra ele se “levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima” era seu maior verso. Vanzolini respondeu assim.

- É o mais conhecido, certamente. Mas ainda prefiro o “reconhece a queda e não desanima”. Esse verso é a alma da música.


Volta Por Cima

Chorei, não procurei esconder
Todos viram, fingiram
Pena de mim, não precisava
Ali onde eu chorei
Qualquer um chorava
Dar a volta por cima que eu dei
Quero ver quem dava
Um homem de moral não fica no chão
Nem quer que mulher
Venha lhe dar a mão
Reconhece a queda e não desanima
Levanta, sacode a poeira
E dá a volta por cima

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Sobre o Uber em Porto Alegre

Foto: Divulgação/Uber

O argumento de que o Uber merece vir (ou tem que vir, como alguns citam) para Porto Alegre é baseado, conforme as leituras que faço, no serviço deficitário dos táxis regularizados. Há uns que falam em modernidade, inovação, livre concorrência, mas a finalidade dos comentários e teses é a mesma: o Uber vai trazer uma concorrência sadia para um serviço que não está agradando à população, que é o transporte público individual.

O que as pessoas não se dão conta é que temos outros Uber por aí. Menos glamorosos, sem carros de luxo, aplicativos em smartphones e propaganda em horários nobres. São os táxis clandestinos na Restinga e na cidade de Guaíba, assim como as vans escolares irregulares, em algumas escolas mais pobres. O estranho é que para estes nunca houve campanha para a regularização de seus serviços. Para esses, a multa de R$ 5.860 é bem-vinda, comemorada. Mesmo eles tendo a mesma premissa do Uber. Afinal, eles estão onde os táxis não estão ou, como dizem os economistas, eles suprem uma demanda reprimida.

Tanto o Uber como os táxis clandestinos, por não serem regularizados, não tem a vigilância do poder público. Isso significa que não tem como saber se o veículo está em dia, com pneus em bom estado e condutor condizente com a profissão que atua. Lógico, o Uber já existe em outros lugares do mundo e presta bons serviços. Sabemos disso. Porém, como o Legislativo vai separar legalmente um serviço de outro? Por que o Uber terá essa distinção? É por causa da comoção popular de uma parcela da sociedade? Esse é o debate que poderíamos fazer. Claro, se houver interesse pelo debate. É possível, como em qualquer discussão, que todos percam um pouquinho, em nome do bem comum. Já que todos sair ganhando será difícil.

Em São Paulo, uma lei para táxis executivos foi criada pela prefeitura e o Uber não quis participar. Já em São Francisco, Estados Unidos, os táxis regulares foram incorporados ao aplicativo do Uber. Lá, o passageiro pode optar por um táxi ou um “carro preto” no próprio aplicativo do Uber. Até o momento, o cenário é bem parecido nas capitais brasileiras (indiferente de partidos ou ideologias políticas), e em diversas da Europa, como Paris e Lisboa. O posicionamento é de que o Uber necessita de regulamentação, pois é transporte remunerado. Caso contrário, será enquadrado como clandestino, como os da Restinga, Guaíba e vans irregulares.

Os defensores do Estado Mínimo (de quanto menos tiver a mão do estado nas coisas, melhor) são coerentes em solicitar o Uber “de qualquer jeito”. O mercado e as pessoas que vigiem e selecionem o que consumir. É um modo de pensar. Agora, quem acredita que o Estado deve trabalhar pelas pessoas, monitorando e fiscalizando serviços essenciais, não podem ser incoerentes nesse debate. Vamos aguardar o seu desfecho e torcer para que a população saia vencedora.

Noções de Literatura com Norman Mailer


Norman Mailer, jornalista e escritor norte-americano (autor do clássico A Luta), foi entrevistado por Paulo Francis, em dezembro de 1996. Não é necessário discorrer sobre ou perder tempo com avaliações. É certeza de um grande encontro. Você tem que ver.



Algumas sentenças de Mailer.

“Flaubert escreveu Um Coração Simples e fez um camponês comum ficar interessante. Segundo ele, não havia pessoas sem graça, cabia ao escritor torná-las interessantes”.

“Crê-se que o escritor ou escritora escrevem sobre si mesmos. Não é verdade. Se temos um dom, é usar a experiência dos outros”.

“O fato é que o estilo muda (...). Novamente me ocorreu a imagem de Picasso. Ele pintava em vários estilos, usando o melhor para o que quisesse dizer. Pensei: “posso fazer o mesmo”, sem encontrar desculpas. Se quiser mudar de estilo, faça-o”.  

“Talvez, o romance sério não tenha função no século 21”. 

“Hoje, parece que o critério usado para o sucesso de um livro não depende mais do mesmo e sim de se o autor é politicamente correto, está na moda, etc”. 

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Quem me indicou o vídeo foi o sempre atento Lucas Colombo, editor do Mínimo Múltiplo, um dos maiores entendedores do Francis.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Boate Kiss – Uma Mancha Em Nossa História

Vítimas da Boate Kiss

A verdade é que eu tento não pensar em coisas tristes. Por isso, faço de tudo para não absorver o que vejo nos noticiários. Mas, às vezes, não tem jeito. Soube que uma boate, superlotada de jovens, incendiou. O resultado foi a morte de muitos rapazes e garotas. Ao todo, 32 mortos. Aconteceu na Romênia. Os responsáveis pela festa e demais envolvidos foram presos. Além disso, um político do alto escalão – o primeiro-ministro – renunciou. As ruas de Bucareste estão abarrotadas de pessoas indignadas, segundo relatos que vem de lá.

Há quase três anos, uma situação semelhante, porém, muito mais trágica, nos assombrava. Dia 27 de janeiro de 2013. Lembro direitinho do dia porque era aniversário de meu pai. Acordei cedo e me preparava para vê-lo. Liguei a televisão e não tinha como evitar o noticiário. Os plantões anunciavam que mais de 230 jovens haviam morrido em Santa Maria, na boate Kiss – no decorrer dos dias, algumas vítimas hospitalizadas faleceram e o número chegou 242.

Os mesmos cenários. Tanto na Romênia, como no Brasil, havia uma casa de show superlotada, sem os requisitos de segurança necessários, onde uma banda fazia um show pirotécnico que acabou em um desastre. Como, diante dessas realidades e fatos, as Justiças tiveram pareceres distintos? Como os romenos estão presos e os brasileiros em liberdade?

Protesto em Bucareste
Aqui, nosso legalismo esdrúxulo – o mesmo que permite ao cidadão o direito de não produzir provas contra si – sequer concluiu o caso e os envolvidos seguem respondendo em liberdade. E a possibilidade de renúncia de algum político sequer foi cogitada.

Já ouvi dizer, por juristas, que essa leniência, essa morosidade nos trâmites da Justiça, é reflexo da nossa jovem democracia, que tem receio de ser injusta, de parecer ditatorial. É um argumento. Contudo, diante de 242 vidas interrompidas, não me parece uma justificativa plausível. O caso da Boate Kiss é uma mancha em nossa história, que não ficará registrada somente pela tragédia, mas por se tratar de um vergonhoso descaso com muitas e muitas vidas – dos que se foram e dos que ficaram.

A verdade é que eu tento não pensar em coisas tristes, mas, às vezes, não tem jeito.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Tive Razão



Meu primo de 12 anos sabe quase tudo. O que ele não sabe, ele procura na internet. Com a idade dele, eu não sabia porra nenhuma. Lembro que, quando eu tinha 12, foi lançado o filme The Wonders - O Sonho Não Acabou, um grande sucesso na época. A música, That Thing You Do!, foi primeiro lugar nas rádios. Meu amigo Pedro jurava que a história era "baseada em fatos reais". Ou seja, The Wonders tinha sido uma banda que realmente existiu, lá na década de 60, tinha feito um sucesso só e deu pra bola. Já eu achava que não, pois nunca tinha ouvido falar neles, não havia nada parecido nas fitas cassete lá de casa.

E o que as crianças faziam antes da internet existir? Pesquisavam em dicionários e enciclopédias ou saiam por aí perguntando. Questionavam os pais, irmãos mais velhos, tios, avós, vizinhos... Enfim, a gente enchia o saco dos adultos, porque eles tinham a resposta certa para tudo. Quando meus pais não sabiam de algo, eles me diziam assim. “Pergunta pra tua professora, então”.

E até minha professora foi sabatinada sobre a existência do The Wonders! Mas ela não via televisão, nem gostava muito de cinema... O resultado é que metade das pessoas consultadas diziam que a banda existiu e outra metade não. Fomos atrás e não conseguimos uma prova, um documento que atestasse e definisse quem estava certo. Muitas vezes era assim mesmo. Nós tínhamos que conviver com discussões sem vencedores. Algo impensável para tempos de Google.

Dia desses, tava ouvindo a Continental FM, enquanto ia do trabalho para casa, e tocou a tal música do filme. Cheguei correndo e liguei o computador. Encontrei a resposta. Abri um sorrisão na cara. Eu tinha razão!