sexta-feira, 31 de julho de 2015

A Hora e a Vez dos Clássicos: Visão de São Paulo à Noite - Roberto Piva


Autor de Paranoia, Piazzas, 20 Poemas com Brócoli, entre outros

VISÃO DE SÃO PAULO À NOITE
Roberto Piva


Na esquina da rua São Luís uma procissão de mil pessoas
          acende velas no meu crânio
há místicos falando bobagens ao coração das viúvas
e um silêncio de estrela partindo em vagão de luxo
fogo azul de gim e tapete colorindo a noite, amantes
          chupando-se como raízes

Maldoror em taças de maré alta
na rua São Luís o meu coração mastiga um trecho da minha vida
a cidade com chaminés crescendo, anjos engraxates com sua gíria
          feroz na plena alegria das praças, meninas esfarrapadas
          definitivamente fantásticas
há uma floresta de cobras verdes nos olhos do meu amigo
a lua não se apóia em nada
eu não me apóio em nada

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Uma “Chegadinha” Não Faz Mal a Ninguém


O futebol mudou consideravelmente. Preparação física de ponta. Cifras estrondosas. Estádios modernos. Cobertura massiva da imprensa. Até o jeito de torcer está mudando. Porém, uma coisa não dá para deixar cair no esquecimento: a marcação individual. Falo isso porque assisti Inter e Tigres, semifinal de Libertadores, e vi o tal de Gignac – excelente jogador francês, que recebe a bagatela de 1 milhão de dólares mensais – desfilar toda sua técnica sem ser ao menos incomodado pelos defensores colorados. Será que ninguém da comissão técnica sabia que ele era um jogador diferenciado e mereceria uma atenção especial?

Não sei se resolveria a vida do Inter, afinal, o Tigres se mostrou mais time. O certo é que faltou a tradicional “chegada” no francês. Aquela leve truculência ou malícia às avessas sempre presente nas marcações sob pressão. Não falo em pontapé ou deslealdade, mas sabe como é... Acho que você, estimado leitor, já jogou bola contra alguém diferenciado. Não é nada fácil parar quem entende do riscado. Eu mesmo, como zagueiro mediano de várzea, utilizo algumas artimanhas, até psicológicas, para tentar segurar o ímpeto dos boleiros. Acontece que, ultimamente, tenho visto pouco isso – as exceções são os argentinos e uruguaios. Comentaristas e técnicos preferem que os sistemas defensivos se organizem em zonas. Então, será que, junto das outras antiguidades do futebol, a marcação individual também ficará no passado?

No Mundial de 2011, Durval bem que tentou "se aproximar" de Messi. Não deu. 4x0 Barcelona
Nesses dias após a eliminação do Inter, encontrei dois reconhecidos ex-jogadores da dupla Gre-Nal. Pedrada, que jogou no tricolor e teve sucesso em clubes do Norte-Nordeste na década de 70 e ainda bate uma bola na praça Tamandaré, e Uga, atacante colorado e do extinto Renner nos anos 50 e 60 que, hoje, com 80 anos, desfila sua sabedoria pelas ruas do meu querido Parque São Sebastião. Os dois concordam comigo. Ficaram perplexos com a liberdade de Gignac e, ambos, confirmaram. “Em nossa época, em jogos decisivos, não tinha essa moleza. Sempre havia um chato em nossa volta”.

E não é só no futebol que isso acontece – ou acontecia. No vôlei, esporte que não prevê contato físico, vocês devem lembrar das rusgas entre Brasil e Cuba. As cubanas faziam um pontinho e debochavam, coladas à rede, da turma de Ana Moser, Márcia Fu e Fernanda Venturini. O objetivo era desestabilizar as brasileiras. Dava certo. Voltando a grama. Em 70, Falcão foi anulado por Jurandir, em um GreNal memorável. Não muito longe, em 2006, Ceará teve a missão de “não jogar” e só vigiar os passos de Ronaldinho Gaúcho, que era na ocasião o melhor do mundo. Foram medidas que deram resultado positivo.
Para quem sabe "chegar", o resultado é o conhecido segue o jogo do juiz
Lógico que, muitas vezes as “chegadas” deram errado – vide o estabanado caso de Felipe Melo na Copa de 2010 –, afinal, é complicado marcar um craque. Entretanto, não custa pelo menos tentar. Uma “chegadinha” não faz mal a ninguém...

terça-feira, 28 de julho de 2015

O Que É a Vida?


Antônio Abujamra (falecido em abril deste ano) encerrava suas entrevistas, no reconhecido programa Provocações, da TV Cultura, com a clássica pergunta.

- Fulano, o que é a vida?

Sempre me imaginei no lugar dos entrevistados. Minha resposta seria essa.

- Não faço a mínima ideia. Mas se há resposta para isso, deve estar em algum disco do Paulinho da Viola...


terça-feira, 21 de julho de 2015

A Hora e a Vez dos Clássicos: Vista Cansada - Otto Lara Resende

Autor de Boca do Inferno, Bom Dia Para Nascer, entre outros
VISTA CANSADA
Otto Lara Resende


Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

domingo, 19 de julho de 2015

Um Pouco de Porto Alegre


Às vezes, quando caminho pelo Centro, tenho a impressão que Porto Alegre é uma cidade de almas penadas, de almas pesarosas, de seres cansados de sonhar. Homens e mulheres sem nenhuma possibilidade de fuga. Personagens de versos de Lupicínio Rodrigues, sobrevivendo fora de suas canções, escondendo seus dramas dentro de capotes ou sob guarda-chuvas.

Suas pegadas deixam uma frustração e uma melancolia marcadas nas calçadas. Até as lojas e centros comerciais são lúgubres em Porto Alegre. Tudo se dissipa e se renova rapidamente sem deixar de ser a mesma coisa.

Pressinto que os porto-alegrenses tem pressa, mas não tem onde chegar. Amanhã, cruzarei com eles outra vez. E esse sentimento idêntico vai me assolar.

Porém, acredito que se eu vivesse em Montevidéu  ou em Praga teria essa mesma impressão.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Onde Me Encontrar



Se você é de Porto Alegre, é possível encontrar meu romance, Virose (ed. Bartlebee, 2013), na biblioteca pública municipal Josué Guimarães, localizada na av. Erico Verissimo, nº 307. Pra quem não é, ele está à venda no site da editora, neste link: http://www.bartlebeedeli.com.br/pd-bf277-virose.html?ct=62fe5&p=1&s=1 

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A Hora e a Vez dos Clássicos: Casal de Três - Nelson Rodrigues

Autor de A Vida Como Ela É, Engraçadinha, O Óbvio Ululante, entre outros
CASAL DE TRÊS
Nelson Rodrigues

O sogro era um santo e patusco cidadão. Assim que o viu arremessou-se, de
braços abertos:
— Como vai essa figura? Bem?
Filadelfo abraçou e deixou-se abraçar. E rosnou, lúgubre:
— Essa figura vai mal.
Espanto do sogro:
— Por que, carambolas? — E insistia: — Vai mal por quê?
Caminhando pela calçada, lado a lado com o velho bom e barrigudo, Filadelfo foi
enumerando as suas provações, só comparáveis às de Job:
— É o gênio de sua filha. Sou desacatado, a três por dois. Qualquer dia apanho
na cara!
Dr. Magarão assentiu, grave e consternado:
— Compreendo, compreendo. — Suspira, admitindo: — Puxou à mãe. Gênio
igualzinho. A mãe também é assim!
Súbito, Filadelfo estaca. Põe a mão no ombro do outro; interpela-o:
— Quero que o senhor me responda o seguinte: isso está certo? É direito?
O velho engasga:
— Bem. Direito, propriamente, não sei. — Medita e pergunta: — Você quer uma
opinião sincera? Batata? Quer?
— Quero.
E o sogro:
— Então, vamos tomar qualquer coisa ali adiante. Vou te dizer umas coisas que
todo homem casado devia saber.

TEORIA

Entram num pequeno bar, ocupam uma mesa discreta. Enquanto o garçon vai e
vem, com uma cerveja e dois copos, dr. Magarão comenta:
— Você sabe que eu sou casado, claro. Muito bem. E, além da minha experiência,
vejo a dos outros. Descobri que toda mulher honesta é assim mesmo.
Espanto de Filadelfo:
— Assim como?
O gordo continua:
— Como minha filha. Sem tirar, nem pôr. Você, meu caro, desconfie da esposa
amável, da esposa cordial, gentil. A virtude é triste, azeda e neurastênica.
Filadelfo recua na cadeira:
— Tem dó! Essa não! — E repetia, de olhos esbugalhados, lambendo a espuma
da cerveja: — Essa, não!
Mas o sogro insistiu. Pergunta:
— Sabe qual foi a esposa mais amável que eu já vi na minha vida? Sabe? Foi uma
que traía o marido com a metade do Rio de Janeiro, inclusive comigo! — Espalmou a
mão no próprio peito, numa feroz satisfação retrospectiva: — Também comigo! E
tratava o marido assim, na palma da mão!
Uma hora depois, saíam os dois do pequeno bar. Dr. Magarão, com sua barriga
de ópera-bufa e bêbado, trovejava:
— Você deve se dar por muito satisfeito! Deve lamber os dedos! Dar graças a
Deus!
O genro, com as pernas bambas, o olho injetado, resmunga:
— Vou tratar disso!

O DESGRAÇADO

Não mentira ao sogro. Sua vida conjugal era, de fato, de uma melancolia
tremenda. Descontado o período da lua-de-mel, que ele estimava em oito dias, nunca
mais fora bem tratado. Sofria as mais graves desconsiderações, inclusive na frente de
visitas. E, certa vez, durante um jantar com outras pessoas, ela o fulmina, com a
seguinte observação, em voz altíssima:
— Vê se pára de mastigar a dentadura, sim?
Houve um constrangimento universal. O pobre do marido, assim desfeiteado, só
faltou atirar-se pela janela mais próxima. Após três anos de experiência matrimonial, ele
já não esperava mais nada da mulher, senão outros desacatos. E só não compreendia
que Jupira, amabilíssima com todo mundo, fizesse uma exceção para ele, que era,
justamente, o marido. Depois de ter deixado o sogro, voltou para casa desesperado.
Chega, abre a porta, sobe a escada e quando entra no quarto recebe a intimação:
— Não acende a luz!
Obedeceu. Tirou a roupa no escuro e, depois, andou caçando o pijama, como um
cego. E quando, afinal, pôde deitar-se, fez uma reflexão melancólica: há dez meses ou
mesmo um ano que o beijo na boca fora suprimido entre os dois. O máximo que ele,
intimidado, se permitia, era roçar com os lábios a face da esposa. Se queria ser
carinhoso demais, ela o desiludia: “Na boca não! Não quero!”. Outra coisa que o
amargurava era o seguinte: a negligência da mulher no lar. Não se enfeitava, não se
perfumava. Deitado ao seu lado, ele pensava agora, lembrando-se da teoria do sogro: —
“Será que a esposa honesta também precisa cheirar mal?”.

MUDANÇA

Um mês depois, ele chega em casa, do trabalho, e acontece uma coisa sem
precedentes: a mulher, pintada, perfumada, se atira nos seus braços. Foi uma surpresa
tão violenta que Filadelfo perde o equilíbrio e quase cai. Em seguida, ela aperta entre as
mãos o seu rosto e o beija na boca, num arrebatamento de namorada, de noiva ou de
esposa em lua-de-mel. Ele apanha o jornal, que deixara cair. Maravilhado, pergunta:
— Mas que é isso? Que foi que houve?
Jupira responde com outra pergunta:
— Não gostou?
Ele senta, confuso:
— Gostar, gostei, mas... — Ri: — Você não é assim, você não me beija nunca.
Jupira tem um gesto de uma petulância que o delicia: vem sentar-se no seu colo,
encosta o rosto no dele. Filadelfo é acariciado. Acaba perguntando:
— Explica este mistério. Aconteceu alguma coisa. Aconteceu?
Ela suspira:
— Mudei, ora!

SOFRIMENTO

A princípio, Filadelfo conjeturou: “É hoje só”. No dia seguinte, porém, houve a
mesma coisa. Ele coçava a cabeça: “Aqui há dente de coelho!”. Coincidiu que, por essa
ocasião, os seus sogros aparecessem para jantar. Dr. Magarão, enquanto a mulher
conversava com a filha, levou o genro para a janela: “Como é? Como vai o negócio
aqui?”.
Filadelfo exclama:
— Estou besta! Estou com a minha cara no chão!
O velho empina a barriga de ópera-bufa:
— Por quê?
E o genro:
— Tivemos aquela conversa. Pois bem. Jupira mudou. Está uma seda; e me trata
que só o senhor vendo!
Ao lado, mascando o charuto apagado, o velho balança a cabeça:
— Ótimo!
— O negócio está tão bom, tão gostoso, que eu já começo a desconfiar!
O sogro põe-lhe as duas mãos nos ombros:
— Queres um conselho? De mãe pra filho? Não desconfia de nada, rapaz. Te
custa ser cego? Olha! O marido não deve ser o último a saber, compreendeu? O marido
não deve saber nunca!

LUA-DE-MEL

Seguindo a sugestão do sogro, ele não quis investigar as causas da mudança da
esposa. Tratou de extrair o máximo possível da situação, tanto mais que passara a viver
num regime de lua-de-mel. Dias depois, porém, recebe uma minuciosíssima carta
anônima, com dados, nomes, endereços, duma imensa verossimilhança. O missivista
desconhecido começava assim: “Tua mulher e o Cunha...”. O Cunha era, talvez, o seu
maior amigo e jantava três vezes por semana ou, no mínimo, duas, com o casal. A carta
anônima dava até o número do edifício e o andar do apartamento em Copacabana onde
os amantes se encontravam. Filadelfo lê aquilo, relê e rasga, em mil pedacinhos, o papel
indecoroso. Pensa no Cunha, que é solteiro, simpático, quase bonito e tem bons dentes.
Uma conclusão se impõe: sua felicidade conjugal, na última fase, é feita à base do
Cunha. Filadelfo continuou sua vida, sem se dar por achado, tanto mais que Jupira
revivia, agora, os momentos áureos da lua-de-mel. Certa vez jantavam os três, quando
cai o guardanapo de Filadelfo. Este abaixa-se para apanhar e vê, insofismavelmente,
debaixo da mesa, os pés da mulher e do Cunha, numa fusão nupcial, uns por cima dos
outros. Passa-se o tempo e Filadelfo recebe a notícia: o Cunha ficara noivo! Vai para
casa, preocupadíssimo. E, lá, encontra a mulher de braços, na cama, aos soluços. Num
desespero obtuso, ela diz e repete:
— Eu quero morrer! Eu quero morrer!
Filadelfo olhou só: não fez nenhum comentário. Vai numa gaveta, apanha o
revólver e saí à procura do outro. Quando o encontra, cria o dilema:
— Ou você desmancha esse noivado ou dou-lhe um tiro na boca, seu cachorro!
No dia seguinte, o apavorado Cunha escreve uma carta ao futuro sogro, dando o
dito por não dito. À noite, comparecia, escabreado, para jantar com o casal. E, então, à
mesa, Filadelfo vira-se para o amigo e decide:
— Você, agora, vem jantar aqui todas as noites!
Quando o Cunha saiu, passada a meia-noite, Jupira atira-se nos braços do marido:
— Você é um amor!

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A Rede Globo produziu a série A Vida como Ela É, em 1996. Casal de Três foi um dos episódios. 


sexta-feira, 10 de julho de 2015

Artigo Publicado no jornal Zero Hora: O 7x1 Não Foi Só Culpa da CBF


Texto foi publicado no caderno de Esportes, página 50

O 7x1 não foi só culpa da CBF

Quando ocorre uma tragédia é natural procurar e apontar culpados. Faz parte de nossa cultura. O 7x1 fatídico contra a Alemanha, em casa, foi uma tragédia. A culpada, agora, um ano após o acontecimento, parece ser a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), segundo avaliação dos maiores especialistas da área.

Eu discordo. Se acreditar somente nisso, terei de fazer o raciocínio inverso e crer que as cinco conquistas mundiais foram responsabilidade da entidade, já que desde 1958 – pelo menos – é notório que pouca coisa mudou na gestão do nosso futebol. Assim, Pelé, Didi, Garrincha, Jairzinho, Romário, Bebeto, Ronaldo e Rivaldo teriam de ficar em segundo plano, o que seria um absurdo. 

Com isso, não quero dar a entender que apoio a CBF, que está, volta e meia, envolvida em casos de corrupção – como o que resultou na prisão de José Maria Marin, seu ex-presidente. Falo do jogo nas quatro linhas, da responsabilidade dos jogadores e comissão técnica que, ao meu ver, são sempre os protagonistas em qualquer vitória ou derrota.

Vimos, nas oitavas de final, no estádio Beira-Rio, a seleção da Argélia encarar a Alemanha de igual para a igual, fazendo o craque goleiro Neuer trabalhar um bocado e ser escolhido o melhor em campo. Os argelinos só cederam na prorrogação. Então, por que o Brasil, em uma semifinal, já como um dos quatro melhores do mundo, conseguiu a façanha inédita de tomar 7x1? Não somos piores que a Argélia, não é mesmo?

Uma das respostas, a mais simples, é que a Alemanha tinha mais time que o Brasil. Temos a tendência a achar que somos os melhores sempre, afinal, somos pentacampões. Entretanto, quem acompanha futebol sabia que a geração deles era melhor. Mas a diferença não era tão abismal assim a ponto de achar que 7x1 seria justo – na partida, realmente o placar foi justo, porém, antes dela era algo inimaginável.

O lado psicológico pesou bastante e ficou evidente nos chororôs sem fim dos jogadores a cada partida. As escolhas erradas de Felipão e sua comissão técnica também foram cruciais – Daniel Alves, o lateral-direito, chegou a dizer que o elenco carecia de conceitos táticos –, assim como a ausência de Neymar, lesionado nas quartas de final, contra a Colômbia.

Enfim, um jogo. Noventa minutos que ficaram para sempre em nossa memória como o maior fracasso do futebol brasileiro. Podemos buscar e caçar os culpados, entretanto, o ideal nesses casos é colocar em prática a lei da Física: “A única forma dos homens chegarem a algum lugar é deixando algo para trás”. Que o 7x1 fique para trás e um novo futebol renasça dessas cinzas.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A Hora e a Vez dos Clásssicos: Um Artista da Fome - Franz Kafka

Autor de A Metamorfose, O Castelo, O Processo, entre outros

UM ARTISTA DA FOME
Franz Kafka

Nas últimas décadas o interesse pelos artistas da fome diminuiu bastante. Se
antes compensava promover, por conta própria, grandes apresentações desse
gênero, hoje isso é completamente impossível. Os tempos eram outros.
Antigamente toda a cidade se ocupava com os artistas da fome; a participação
aumentava a cada dia de jejum; todo mundo queria ver o jejuador no mínimo
uma vez por dia; nos últimos, havia espectadores que ficavam sentados dias
inteiros diante da pequena jaula; também à noite se faziam visitas cujo efeito
era intensificado pela luz de tochas; nos dias de bom tempo a jaula era levada
ao ar livre e o artista mostrado especialmente às crianças. Embora para os
adultos ele não passasse de um divertimento, no qual tomavam parte por causa
da moda, as crianças olhavam com assombro, de boca aberta, uma segurando
a mão da outra por insegurança, aquele homem pálido, de malha escura, as
costelas extremamente salientes, que desdenhava até uma cadeira para ficar
sentado sobre a palha espalhada no chão: ora ele acenava polidamente com a
cabeça, ora respondia com um sorriso forçado às perguntas, esticando o braço
pelas grades para que apalpassem sua magreza e mergulhando outra vez
dentro de si mesmo, sem se importar com ninguém, nem mesmo com a batida
do relógio - tão importante para ele e a única peça que decorava a jaula -, mas
fitando o vazio com os olhos semicerrados e bebericando de vez em quando
água de um copo minúsculo para umedecer os lábios.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Ninguém Gosta de Ficar Sozinho Quando Está Numa Pior


Esses bichos de estimação jamais nos decepcionam. Por isso, compreendo os que preferem animais a pessoas. Os animais não destroem a gente. Os animais não nos prometem nada além de companhia.

Ontem, no bairro Jardim Botânico, indo pra casa, assisti uma senhora arrastar seu cão cego e manco das patas traseiras. Em certo momento, ela parou e o ajudou a urinar.

Seus olhos diziam “aguenta firme, meu amigo”. Os olhos do cachorro estavam consumidos por uma névoa branca, não diziam nada, ele apenas farejava, para ter certeza que não estava sozinho. Acho que ninguém gosta de ficar sozinho quando está numa pior.

Foi uma cena triste, mas bonita.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Um Epitáfio


Sou o cachorro do mendigo

e o mendigo é a Literatura

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Foto: Felipe Daroit