terça-feira, 15 de agosto de 2017

Reunião no Bunker e Uma Sugestão de Leitura


- Bom, gente! Agradeço a presença de todos. O tema Judeus já foi superado. A partir de agora, o esquema é o seguinte: vamos conquistar a Europa. No mapa que a turma do Goebbels fez aqui dá pra ver o trajeto das tropas. Quem não se aliar conosco, será considerado...

- Desculpe interromper, Führer.

- Sim?

- O senhor ainda não disse se somos de direita ou esquerda. Esse tema está pendente há quatro encontros. Acho relevante uma definição o quanto antes.

- Hum... Verdade. Falta essa definição. Mas depois que conquistarmos a União Soviética a gente vê isso aí.

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Sugestão de leitura


Nesses tempos tristes, de neonazistas em marcha pelos EUA, essa leitura é uma boa indicação. Personagem principal de Diário da Queda, de Michel Laub, é neto de um sobrevivente de Auschwitz.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Anjo e Demônio - Armando Nogueira Recorda Heleno de Freitas

Jornalista Armando Nogueira (1927 - 2010)
O futebol, fonte de minhas angústias e alegrias, revelou-me, ao longo dos anos, em Heleno de Freitas, a personalidade mais atormentada que conheci nos estádios deste mundo.

Viveu em conflito com o universo do futebol, amado como um Deus, renegado como o demônio: era o espantalho dos árbitros, o gênio da bola, o desafeto das torcidas. Era, também, o galã irresistível das mocinhas de Copacabana que lhe namoravam a elegância, no traje, a rebeldia, o anel de doutor e a celebridade.

Em campo, tinha acessos de fúria, cuspia fogo nos rivais, nos próprios colegas de equipe, no juiz. Só tinha afagos pra conquistar a bola, em cuja convivência realizava sua face de anjo. Era um artista, jogando: driblava com esmero, corria em gestos perfeitos. Enriquecia o futebol com melodias corporais de raro efeito. Poucos craques na história do futebol conseguiram ou conseguirão jogar tão bem de cabeça quanto ele. Costumava dar cabeçadas homéricas.

Heleno de Freitas realizava todas as virtudes de craque com um toque de beleza. Tinha, contudo, a psicose da perfeição: o erro do homem derrotava o artista - e Heleno perdia a cabeça, perdia a razão, perdia o jogo. Transtornado, acabava expulso. Fora de campo, era um cavalheiro, apesar de ter sido sempre marcado por uma sombra de narcisismo que é, por sinal, um dos grandes abismos do ídolo.

Perturbado mentalmente, em 1953, Heleno de Freitas sumia dos estádios. A família, a muito custo, arrancou-o das arquibancadas do Botafogo, onde costumava passar as tardes, sozinho, dia de treino, com o rosto enfiado numa toalha de banho, cheirando éter. Chorava. Quem saberia dizer de quê: saudade? amor? desamor? inveja? abandono? Heleno acabou louco internado no Sanatório de Barbacena.

Dormia abraçado com a bola delirante do jogo de ontem, de hoje, de amanhã, de sempre. Quando acordava, bola murcha, Heleno tornava ao delírio. Heleno de Freitas, o craque das mais belas expressões corporais que conheci nos estádios, morreu, sem gestos, de paralisia progressiva, e descansa, hoje, no Cemitério de São João Nepomuceno, onde nasceu um dia, para jogar a própria vida num match sem intervalo entre a glória e a desgraça.

Crônica publicada no Jornal do Brasil, dia 11 de novembro de 1970. 

sábado, 5 de agosto de 2017

Um Livro Que Me Deixou Zonzo - Árvores Abatidas


Sempre tive inveja de quem consegue ler em carro ou ônibus. Comigo isso é impossível. Se eu passar os olhos numa notinha de jornal, já basta pra ficar enjoado e me estragar o resto do dia. Quando não acontece coisa pior.

Demorei pra descobrir a causa. Tá certo que o SUS não ajudou. Nas vezes que estive no Pronto Socorro me deram um Plasil e tchau e benção. Só acharam o problema quando comecei a cair sozinho. Daí, um médico cravou: “Tu tem vertigem posicional crônica”.

E completou: “Tem remédio. Tem tratamento. É uma doencinha. Não te preocupa”.

O curioso é que ler no trem eu consigo. Nos oito anos que fiz a rota Porto Alegre/São Leopoldo, li muita coisa boa – também detonei um discman, mas isso é outra história. Retirava os exemplares da biblioteca da Unisinos. Nos quarenta minutos do itinerário, conheci Albert Camus (A Peste), Murilo Mendes (As metamorfoses), Katherine Mansfield (Felicidade), Campos de Carvalho (A lua vem da ásia), John Fante (A caminho de Los Angeles)... e Thomas Bernhard.

Não sei como esse autor foi parar na minha mão – desconfio que tava procurando Thomas Mann... Árvores Abatidas era o título. O enredo era simplório: um jantar. O narrador-personagem fica sentado numa cadeira, observando os preparativos para o evento e divagando. Passa a trama toda espinafrando a Áustria, Viena, os artistas, os intelectuais, os dogmas europeus, as ideologias políticas. Bernhard não poupa ninguém. Claro, nem ele próprio. A edição não tem capítulos. Texto corrido em apenas um parágrafo imenso. Um jorro só. Um queixume.

Explicando assim não parece, mas é um grande livro.

Talvez, tenha sido o ideal para um jovem indignado como eu era. Um jovem que pegava o trem das 22h20 e tinha que correr para alcançar o ônibus das 23h20 para chegar em casa antes da meia-noite.

Entretanto, a qualidade estética de Bernhard está acima de qualquer experiência de leitor. Problema é encontrá-lo em livrarias ou sebos. É raro achar exemplar desse livro à venda. Os que existem, usados, ultrapassam os R$ 200. Há outros títulos mais em conta.

Enfim, retomando o causo do início. Árvores Abatidas foi o livro que me deixou zonzo, me tirou o prumo. Escancarou uma possibilidade, uma realidade, que é a vida, que é a arte. Essa doencinha, que tem remédio, que tem tratamento. E nos preocupa tanto.

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Mais sobre o autor nesse artigo de Antônio Xerxenesky - 
http://blogdoims.com.br/thomas-bernhard-repeticao-e-aniquilacao-por-antonio-xerxenesky/  

A imagem com a citação é do livro O sobrinho de Wittgenstein.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Algumas Leituras de Um Silêncio Avassalador


Após um ano do lançamento, separei algumas leituras de Um Silêncio Avassalador, que foram publicadas em jornais, sites e blogs literários.


"A obra é dessas leituras que você faz numa tarde, tornando o dia preenchido por algum tipo de texto que faz tudo ficar um pouco melhor"
Até Que Um Ponto, blog


“A escrita do autor flui de maneira primorosa, com uma linguagem versátil que transita desde o vulgar até o poético”
Toque Literário, blog


“Tristeza, melancolia e a ferocidade dos personagens em se encontrar em algum lugar no mundo e na sociedade é o ponto alto desse livro”
Lendo 1 Bom Livro, site


“Bem escrito, a obra surpreende pela honestidade”
Duas Estantes, site


“Com uma sinceridade que chega a ser chocante, o autor cria uma conexão personagem-leitor, convidando a todos a realizar uma reflexão intensa a respeito da frágil natureza do ser humano”
Livro In Cena, blog


“A escrita de Lucas Barroso não perde em nada para os autores nacionais contemporâneos de peso. É uma bela surpresa ver um livro brasileiro publicado com tantos cuidados”
Pandamônio, site


“Alternando personagens de diferentes meios, idades, homens ou mulheres, o autor escreve com agilidade e consegue extrair deles sempre algum deslocamento e uma certa dificuldade de viver em sociedade”
Diário de Pernambuco, jornal


“São histórias de sexo e violência - simbólica ou não - que põem em cheque nossa humanidade”
O Povo, jornal


“Uma leitura que irá ecoar por um bom tempo. Lucas Barroso é esse tipo de escritor, que irá te acompanhar por muitos dias depois da última página de seu inquietante livro”
Adalberto Souza, Jornal de Alagoas


“Os personagens vão mostrando suas motivações e sentimentos no decorrer dos textos e é tão palpável que o leitor pode se sentir como se fizesse parte daquela história”
Minha Contracapa, site


“O ritmo das histórias convida o leitor a permanecer focado no livro até a última página”
Marcelo Kenne Vicente, Medium


“O autor não faz concessão em momento algum da obra. (...) Os contos lembram bastante as histórias de Raymond Carver, sempre terminando de uma forma incomum, como se continuassem depois do ponto final”
Angústia Criadora, site

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No link, dá para ler as resenhas na íntegra, além de entrevistas para rádios e comentários em canais do Youtube (http://lsbarroso.blogspot.com.br/p/livros-publicados.html).

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O livro está à venda (e-book e físico) no site da editora Moinhos http://editoramoinhos.com.br/loja/um-silencio-avassalador/. É possível adquirir também no site da livraria Cultura, Google Play, Amazon e Estante Virtual

quinta-feira, 13 de julho de 2017

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Os Cães São Fiéis / Fiéis Até Aos Homens Maus


Deixa esses versos envelhecerem
Sem companhia
Deixa assistirem mais uma guerra
E mais quantas forem preciso
Até que esses versos
Tenham um sentido
Maior que essa destruição
Maior que esse novo mundo
Que renasce
Da guerra
Que esses versos
Estão cansados
De ver

Deixa esses versos
Nas mãos dos soldados derrotados
Bata em retirada
E assista a tudo
De algum lugar
Ao longe

De algum lugar
Onde os animais selvagens fiquem a sós
Com seus pensamentos

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Tarde Demais - Crônica de Ruy Castro


RIO DE JANEIRO - Há anos, passando em frente a uma lavanderia da Lapa, algo me chamou a atenção: uma pilha de 50 ou 60 discos de 78 rpm, no chão, na porta do estabelecimento. Velho fuçador de sebos, abaixei-me para examinar. O primeiro da pilha já era espetacular: um disco da gravadora Sinter, apresentando um choro no lado A e um "bop" no lado B. Intérpretes: "Os melhores de 53".

E quem eram "os melhores de 53"? A lista vinha impressa no selo: entre outros, os saxofonistas Zé Bodega e Cipó; o trompetista Julio Barbosa; o trombonista Nelsinho; o clarinetista Severino Araújo; o pianista Radamés Gnatalli; o baterista Luciano Perrone; e outro saxofonista, Paulo Moura. Em 1953, Paulo Moura tinha 20 anos, mas já podia sentar-se entre aqueles mestres. E o fato de o disco conter um choro e um tema puxado ao jazz indicava as duas direções de sua carreira.

Folheei os outros discos e nenhum me interessou. Perguntei ao homem do balcão se estavam à venda. Respondeu que eram de graça -desde que eu levasse todos. Não os jogara fora há mais tempo porque tivera pena, um deles poderia interessar a alguém. Não discuti. Fiz sinal para um táxi, e o motorista me ajudou no carreto das bolachas para o banco traseiro. Já o dos "Melhores de 53" foi a salvo comigo, preso pelas duas mãos.

E até hoje o tenho. Mas, agora, com um travo de remorso. Certa vez, falei desse disco ao próprio Paulo Moura. Ele disse que já não o tinha havia décadas e lamentava que nunca mais voltaria a escutá-lo. Prometi-lhe uma cópia, mas, com as idas e vindas da vida, o disco sumiu de minhas vistas. Estive com Paulo muitas vezes, e ele, elegantíssimo, nunca me cobrou. Eu é que me sentia em dívida.
Pois, esta semana, reencontrei o disco em casa, numa estante. E me comovi ao ler o título do choro -"Agora É Tarde Demais"-, porque Paulo acabara de morrer.


Crônica publicada na Folha de São Paulo, em 17/7/2010