sexta-feira, 16 de junho de 2017

Os Cães São Fiéis / Fiéis Até Aos Homens Maus


Deixa esses versos envelhecerem
Sem companhia
Deixa assistirem mais uma guerra
E mais quantas forem preciso
Até que esses versos
Tenham um sentido
Maior que essa destruição
Maior que esse novo mundo
Que renasce
Da guerra
Que esses versos
Estão cansados
De ver

Deixa esses versos
Nas mãos dos soldados derrotados
Bata em retirada
E assista a tudo
De algum lugar
Ao longe

De algum lugar
Onde os animais selvagens fiquem a sós
Com seus pensamentos

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Tarde Demais - Crônica de Ruy Castro


RIO DE JANEIRO - Há anos, passando em frente a uma lavanderia da Lapa, algo me chamou a atenção: uma pilha de 50 ou 60 discos de 78 rpm, no chão, na porta do estabelecimento. Velho fuçador de sebos, abaixei-me para examinar. O primeiro da pilha já era espetacular: um disco da gravadora Sinter, apresentando um choro no lado A e um "bop" no lado B. Intérpretes: "Os melhores de 53".

E quem eram "os melhores de 53"? A lista vinha impressa no selo: entre outros, os saxofonistas Zé Bodega e Cipó; o trompetista Julio Barbosa; o trombonista Nelsinho; o clarinetista Severino Araújo; o pianista Radamés Gnatalli; o baterista Luciano Perrone; e outro saxofonista, Paulo Moura. Em 1953, Paulo Moura tinha 20 anos, mas já podia sentar-se entre aqueles mestres. E o fato de o disco conter um choro e um tema puxado ao jazz indicava as duas direções de sua carreira.

Folheei os outros discos e nenhum me interessou. Perguntei ao homem do balcão se estavam à venda. Respondeu que eram de graça -desde que eu levasse todos. Não os jogara fora há mais tempo porque tivera pena, um deles poderia interessar a alguém. Não discuti. Fiz sinal para um táxi, e o motorista me ajudou no carreto das bolachas para o banco traseiro. Já o dos "Melhores de 53" foi a salvo comigo, preso pelas duas mãos.

E até hoje o tenho. Mas, agora, com um travo de remorso. Certa vez, falei desse disco ao próprio Paulo Moura. Ele disse que já não o tinha havia décadas e lamentava que nunca mais voltaria a escutá-lo. Prometi-lhe uma cópia, mas, com as idas e vindas da vida, o disco sumiu de minhas vistas. Estive com Paulo muitas vezes, e ele, elegantíssimo, nunca me cobrou. Eu é que me sentia em dívida.
Pois, esta semana, reencontrei o disco em casa, numa estante. E me comovi ao ler o título do choro -"Agora É Tarde Demais"-, porque Paulo acabara de morrer.


Crônica publicada na Folha de São Paulo, em 17/7/2010

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A Paixão é Cega e Vem montada num burro

"A paixão é cega e vem montada num burro", diz o ditado.

Recordo essa máxima, porque a tendência é que as pessoas que defendem Lula/Dilma e Aécio/Temer (enrustidos ou escancarados) sigam assim. Indiferente a conclusão da Justiça. Essa de "vamos aguardar" é uma balela.

Ninguém (pelo menos que eu conheça) mudou sua opinião em relação a Collor, absolvido pela Justiça em 2014 pelos supostos (?) crimes de corrupção em 92. Ninguém esperou para tirar suas conclusões.

Quem o chamava de ladrão na ocasião, mantém sua postura (falo por mim também). Mesmo que as provas/evidências não tenham sido suficientes para uma punição.

É assim que funciona. A gente nem nota que o príncipe encantado não veio montado no cavalo branco e, sim, em um burro. Porque a gente só tem olhos para o príncipe.

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STF absolve Collor por crimes de corrupção da época em que era presidente

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Dois Galãs - Conto de James Joyce


James Joyce, no centro da foto


Dois trechos do conto Dois Galãs, do livro Dublinenses (edição de 1993, editora Siciliano), de James Joyce.


Caminhou a esmo por Stephen’s Green e desceu a Grafton Street. Embora seus olhos captassem uma série de detalhes da multidão a sua volta, a observação era feita de uma maneira morosa. Achava banal tudo o que supostamente deveria agradá-lo e não correspondia aos olhares convidativos que o cercavam. Sabia que teria de falar muito, inventar histórias e fazer graça, mas tanto o seu cérebro quanto a garganta estavam secos demais para realizar tal proeza. A questão de como passar o tempo até chegar a hora de encontrar-se com Corley preocupava-o um pouco. Não via outra coisa a fazer, a não ser continuar caminhando. Dobrou à esquerda quando chegou na esquina da Rutland Square e sentiu-se mais à vontade na rua escura e quieta, cujo aspecto soturno veio a calhar com seu estado de espírito. 

(...)

Estava cansado de dar cabeçadas, de fazer das tripas coração, de artimanhas e intrigas. Completaria trinta e um anos de idade em novembro. Será que nunca conseguiria um emprego? Será que nunca teria um lar? Como seria bom poder sentar-se diante de uma lareira e um jantar gostoso. Já perambulara demais pelas ruas com amigos e mulheres. Bem sabia o quanto valia essa gente. Certas experiências haviam tornado seu coração amargo com respeito ao mundo. Mas ainda tinha um pouco de esperança. Sentiu-se melhor depois de comer, menos revoltado com a vida, menos abatido espiritualmente. Quem sabe ainda conseguiria fixar-se em algum lugar agradável e ter um pouco de felicidade; tudo que precisava era encontrar uma garota bobinha e com um pouco de dinheiro.

terça-feira, 18 de abril de 2017

O Tempo do Lobo, Filme de Michael Haneke



Um drama sobre refugiados. Sobre barbárie e esperança. O Tempo do Lobo, filme de 2003, dirigido por Michael Haneke.

Abaixo, a carta que a personagem Ana escreve a seu pai.


Querido papai,

Agora, que encontrei caneta e papel preciso te escrever. Tanta coisa está acontecendo e não há ninguém a quem eu possa falar. Eu não sei se você pode ver, ou ouvir, ou ler isso, ou mesmo se você pode sentir qualquer coisa. Mas quero tanto acreditar que você pode. Meu muito querido papai... É tão difícil colocar isso em palavras quando não há ninguém a quem falar. Parece que estou sufocando. Você poderia perguntar, por que não falo com Benny ou a mãe. Mas eu não posso. Você saberia disso, se estivesse aqui. Tenho de pensar em cada palavra que digo a mamãe, porque senão ela pode ter um colapso. Suas mãos estão sempre tremendo e eu não posso ajudá-la.  Eu não acho que Benny possa entender, como você pode entender, papai. E também tem esse menino. Eu poderia falar com ele. Mas ele age com tanto orgulho e é como se ele não se importasse com nada. Mesmo que eu saiba que não é esse o caso. Deve estar parecendo muito confuso para você. Mas essa é a principal razão porque eu estou escrevendo. Minha esperança é que, por escrito, isso faça sentido. Eu quero contar para você uma coisa, depois outra. De modo que você possa entender a vida que estamos levando. 



quinta-feira, 6 de abril de 2017

Discografia Essencial - Meu Nome é Gileno (1976)


Meu Nome é Gileno - Leno (1976)

Discaço! Não está em nenhuma lista de melhores, não é citado por nenhum especialista como discografia básica. Bom... o problema é deles.


sábado, 1 de abril de 2017

Como Vovó Já Dizia


Eu perguntava como estavam as coisas e minha vó encarreirava problemas e brigas. O vizinho, o amigo, o parente. Um deles tinha lhe aprontado. E ela tinha sempre a razão. Segundo a velha, a atitude certa era sumir. Ir pra bem longe. Tinha certeza que ninguém daria falta.

Eu dizia pra ela não falar bobagem. A velha ia pra cozinha braba. Guardava umas louças, fazia uma bateção desgraçada nos armários e de lá comentava, naquele tom de quem fala sozinho.

- E tem mais. Eu não sou dinheiro pra todo mundo gostar de mim